São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo poderão achar confôrto.
Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Lœva ejus sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.[[3]]
O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.
Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.
Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas para a eternidade.
Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita namorado.
Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida[{74}] nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.
Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:—¡O beata solitudo! ¡o sola beatitudo!—porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.
Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.
Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.