O POETA
Tennemi Amor anni ventuno ardendo
Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,
Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme
Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.
Ornai son stanco, e mia vita riprendo
Di tanto error; che di virtute il seme
Ha quasi spento; e le mie parti estreme,
Alto Dio, a te divotamente rendo.
Pentito e tristo de' miei si spesi anni,
Che spender si doveano in miglior uso,
In cercar pace, ed in fuggir affanni,
Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,
Trammene salvo dagli eterni danni,
Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.
A RELIGIOSA
¡Ay! ¡que larga es esta vida!
¡que duros estos destierros,[{75}]
esta carcel, y estos hierros,
en que está el alma metida!
solo esperar la salida
me causa un dolor tan fiero,
que muero porque no muero.
Acaba yà de dexarme,
vida, no me seas molesta;
porque muriendo, ¿que resta,
sino vivir, y gozarme?
No dexes de consolarme,
muerte, que assi te requiero,
que muero porque no muero.
O POETA
Io vo piangendo i miei passati tempi,
I quai posi in amar cosa mortale,
Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,
Per dar forse di me non bassi esempi.
Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,
Rè del Cielo invisibile, immortale,
Soccorri all'alma disviata, e frale,
Él suo difetto di tua grazia adempi.
Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,
Mora in pace, ed in porto; e se la stanza
Fu vana, almen sia la partita onesta.
A quel poço di viver che m' avanza,
Ed al morir, degni esser tua man presta:
Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.
A RELIGIOSA
Ay! que vida tan amarga
dò no se goza el Señor!
Y si es dulce el amor,
no lo es la esperanza larga.
Quiteme Dios esta carga,
mas pesada que de azero,
que muero porque no muero.[{76}]
Solo con la confianza
vivo de que he de morir:
porque muriendo el vivir
me assegura mi esperanza.
Muerte, dó el vivir se alcanza,
no te tardes, que te espero,
que muero porque no muero.
¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam com lagrimas.
Valchiusa ou, como dizem, Voclusa, onde Petrarcha passa tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.
Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.
Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.
Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.
Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; ter geminis honoribus; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de murta, como amante.[{77}]
Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.
Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de Laureta.