A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.
D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.[{78}]
Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma candido.
Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar, como agora estou fazendo.
[XXX]
¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.
Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.
¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo, duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?
Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos, nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra a buena-dicha, em que ninguem creu.
O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada[{79}] nas noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não trovador.