Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.
[XXXI]
A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.
¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como[{84}] vos desvanecestes? ¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?
Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.
[XXXII]
Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.
Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;
........quis enim securus amavit?
mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!