Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi tudo.
O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.
Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me[{85}] abortava o certo. ¿A paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem por isso menos attendiveis.
Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem derramado por esse mundo.
Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.
[XXXIII]
O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo de Amor e Melancolia; Melancolia não ha separal-a do Amor.
Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com palavras tambem d'ella:—que ha mais gente habilitada para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.
Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um prado florescente de[{86}] primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da obra Novissima Heloisa, designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.
O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se desaproveitou, (trovas, tenções, solaus, ou como melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles, confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.