Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por ventura o ouve. Será um devaneio,[{10}] e um solilóquio; será uma folha sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.

Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse necessario.[{11}]

[I]

Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil; mas tentemos.

Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação da identidade:

Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome, a similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da indole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico indestructivel no meio da metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!

O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo, por fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpção.

O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações; renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés, e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se[{12}] essas myriadas de particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas para novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo rendel-as sem estrondo nem abalo.

N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae, influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro, usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos, inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.

Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós mesmos, confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a madureza com o desabrochar no berço.