—«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:

¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?

—«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.

Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.

Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se gelava o coração!

Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os seus arrufos.

Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:

A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
.................ibi hæc incondita solus
Montibus et silvis studio jactabat inani.
¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais no amplissimo horizonte
do mundo a tumultuar, de cidades a rir...
n'este ermo ignaro, frio? mudo...
aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,
¡o meu presente e o meu porvir![{101}]
Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
a mansão tua é monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?
¿Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
sonhava mundo... ¡acho um deserto!
sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;
é como uns sons d'ignota fala;[{102}]
qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
¡são mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
mais tentações a dar-me fel!...»—
¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar louvores!...
¡Tanto moço a colher amores!...
¡Tantos loireiros e rosaes...
E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
Só o abutre de eterna fome,
que o grande coração algoz sem fim lhe come,
responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora fecunda
dos cantos meus! ¿porque me inunda
nova amargura o coração?
¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;[{103}]
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
é vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já prestes
não susciteis mais tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
vós, astros, cifras de diamantes,
O arcano me aclarae lá d'essas regiões.
¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
¡se me volvesseis as ditosas
esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
com que se enfeita e esconde a Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o não colhido loiro,
em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, e inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
(embora em saudades me eu queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as festas da loucura?
vinde, guiae-me á sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.[{104}]
¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
não, no silvestre seio vosso,
nem de amenas ficções apascentar-me posso,
nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
sondou jamais o abysmo escuro?
¡Apenas chego e já murmuro!
¿O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.
Se além, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollicito se afana
em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;
se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão que me apavora,
sómente o fôr vista de fóra;
se em seus recôncavos demora
gente feliz, povo de irmãos;
se do antigo viver, das crenças de outra edade,
vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte a Natureza ri...
coração meu, não desanimes,
gozos que não prevês, e cantos mais sublimes
encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim, que importa a fama!
Tambem philomela derrama
sua harmonia ás selvas que ama
longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria[{105}]
que a viva, a lustrosa poesia
de perolas que a flux borbóta o rouxinol?

Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por signal O Presbyterio da Montanha.

[XL]