Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e apropriadas.

¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.

Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a Linneu[{106}] os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e fecunda.

Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.

Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica, condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso[{107}] uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.

O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.

André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva saudades;—bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.

¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.