Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos[{108}] que já a podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.

[XLI]

Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os amores; direi melhor:—iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.

O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar, enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.

N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das raias[{109}] da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.

Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.

Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo é que alliciam almas generosas.

¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!

Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já encontraram prevenida.

Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas sinceros, nos occorreram.