Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.
Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e esquecido de que havia mundo.
Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.—Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.
¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,
eis-te já no teu novo domicilio,
eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!
Gente do presbyterio, afervorae-vos,
entrançae danças, coroae-vos todos,
cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.
¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!
Anjos que protejeis a Natureza
vossa amavel irman filha do Eterno,
que entre vós repartistes as montanhas,
o arvoredo das Dryades palreiras,
e a urna fresca das occultas Náyades,
vinde, adoptae no seu primeiro dia
do filho de David a arvore antiga.
D'entre os ramosos tufos elevado
seu cume se remonte á patria vossa,
e aponte os Ceos ao pensamento humilde.
Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;
a vós o cedro; o cedro, inda saudoso[{123}]
e altivo do seu Libano, inda cheio
das lembranças da Biblia, inda soberbo
de hospedar em jardins, palacios, templos,
Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.
Assim glorioso e mistico, o bom cedro,
o cedro-rei, viu supplice prostrar-se
Israel ora a Deus, ora á fortuna,
aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.
¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!
co'a verdenegra copa não desdenhes
acoitar o singelo presbyterio.
Premeia o generoso desint'resse
do plantador que desce todo á campa.
Sagradas são as dividas do affecto;
os cuidados que assiduos te protegem,
invoca o tempo de os pagar co'as sombras.
Dias virão nos teus crescentes dias,
em que nobre ante a porta da virtude
com ternura e respeito hão-de saudar-te
os montanhezes descobrindo a fronte.
Lembrarás os antigos patriarchas,
que ao-pé da movel tenda no deserto
pertenciam aos Ceos pela esperança,
e ao patrio mundo pelo amor dos homens.
—Ali—dirão—na sésta reclinado
o pobre ancião, pastor d'estas aldeias,
ao circulo inquieto dos meninos
ensina a amar a Deus, a si, aos outros,
ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;
e, abraçando-os risonho á despedida,
distribue co'a mão tremula aos melhores
em premio doce disputados frutos.—
—Ali—dirão tambem—sentou-se um dia,
e gabou a frescura das ramadas,
um Bispo antigo e santo; ali tomava
o seu café, resando o breviario;
meu avô, bem que rustico e indigente,
falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.
¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!
essa arvore o cobriu, ficou sagrada.—
Hospede e amigo do adoptado albergue,
firma-te ao solo com raizes promptas;
exalça a fronte aerea, alto, gigante;[{124}]
abre os cem braços co'os tufões em lucta.
Piedoso Briarêu, não temas raio;
o raio atrôe as serras, cegue, abraze
o altivo topo ás arvores soberbas;
tu, não tremas; eu quero no futuro
que um novo talisman te adorne e ampare,
possante contra furias de elementos,
contra o machado algoz, contra demonios:
Se dos teus annos na madura força
a mão que ora te planta inda for viva,
essa mesma, já tremula e inda amiga,
inda meiga ao seu cedro, e já caduca,
no tronco te abrirá com tardo exforço
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo:
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.
N'essa noite poetica e devota,
em que o prazer, centuplicando aspectos,
povoa, anima, encanta o mundo inteiro;
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
em que n'alma insaciavel de delicias
se juntam com mistura inexplicavel
o saudoso passado, os bens presentes,
ao contente futuro ebrio de esp'ranças;
em que n'um laço mystico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gozos, superstições, fraquezas, cultos,
como um ramo de rosas e ciprestes
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite das noites invejada,
té dos casaes lá do ultimo horizonte
a ti concorrerão por toda a parte
dançantes bandos que a viola impéra.
Verás girar seus bailes rebatidos
em redor das estridulas fogueiras;
ouvirás os seus canticos em coro
devoto e namorado; a bomba foge,
zune fugindo, e solapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,[{125}]
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
aqui, circula em vertice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
ali, floreia o fulgido valverde,
vulcão sonoro que arremette ás nuvens;
vôa, remonta impaciente aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.
¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!
e essa mão dada a furto, e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia noite em ponto! e a flôr crestada!
¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver c'roada
de festões verdes e enlaçadas flores!...
¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos
te aguardam no porvir, me estão na mente!
Mas se ao neto do Libano silvestre,
se á arvore do templo, ao cedro antigo,
mais contenta sublime austeridade,
religioso é o chão que te sustenta,
santa e severa a muda visinhança.
D'esse lado, essa relva avelludada
foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;
onde a oliveira está, surgia a torre;
bradava aos eccos dos remotos cumes
o sino da oração, lá onde agora
está cantando o melro; e pasce a ovelha,
balando o seu amor ao filho ausente,
onde a moça aldeana ajoelhada
em noite do Natal, ante o presepio
acalentava em côro o Deus Menino.
Nem portas, nem degraus, nem muros restam!
¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!
¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!
D'aqui, filho do antigo, o novo templo
te alveja em face. Em fundo de sepulcros
por ossos vãos enredarás raizes.[{126}]
¡Que vezes para o ceo voarão juntos
o perfume do incenso e o teu perfume,
o teu sussurro e os canticos da Biblia!
Escutarás por baixo do teu cume
os mysterios, a supplica chorosa,
as lições da moral, do Eterno as glorias,
o voto humilde, a gratidão serena,
o tom pesado dos funereos Psalmos,
a infancia d'entre as aguas renascida,
os protestos do amor que acceita e córa;
e o mais que o mal previne e o mal espia,
gera, vigora o bem e o bem premeia,
suavisa as dores, o prazer modera,
adoça a vida, aperfeiçoa os homens,
e por c'roa da paz a paz promette.
Assim, quasi debaixo de teus ramos,
juntarás o que a mil faria illustres:
a raça que milita, e a que triumpha;
os cultos da saudade, e os cultos vivos.
Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.
Alto, em frente do humilde presbyterio,
torna-te a sentinella das montanhas.
Se o peregrino, attonito, espantado,
errar nos cumes alongando os olhos;
se vires muito ao longe os passos frouxos,
o curvo dorso, o pallido semblante,
e as cans sem honra do ancião mendigo;
indica-lhes a senda hospitaleira,
mostra-lhes em teu lar os seus penates;
e dize ao peregrino:—Eis a poisada;—
e ao mendigo:—Bom velho, andas perdido;
reconhece o teu fumo, a tua porta,
teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.—
¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!
beneficencia, paz, respeito, gozos,
¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!
Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos
seculos são se á rosa se comparam,
mas passam como a rosa a par dos cedros.
Para ti, de anno em anno a primavera
virá com pompa nova e novas galas;[{127}]
para nós, menos flores de anno em anno
lhe virão no regaço; menos fogo
nos olhos, no sorrir menos ternura.
Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,
para quem toda a alegre Natureza
era animada, meiga, inspiradora;
que doce delirava entre as violetas,
entendia o favonio e a voz das fontes,
entrava co'a andorinha em seus prazeres,
co'o rouxinol em seus segredos ternos;
que do meu estro nas visões formosas
arvoredos, oiteiros, grutas, rios,
povoava das priscas divindades,
e n'um mundo só meu, vivia todo...
hoje, ¡quão frouxa pela mente nua
sinto raiar a inspiração que imploro!
Do genio a seiva, a primavera da alma,
langue; raro floresce, a longe, a longe.
¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso
que a grinalda poetica se esfolhe!
¡Lyra que apenas entoou preludios,
já desafina, e jazerá sem honra!
¿Serão estes os canticos do cysne?
Ó meus delirios, nuncios meus de gloria
¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre
lagrimas, illusões, ternura, cantos?!
¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!
E tu tambem, tu morrerás um dia.
As raizes cançadas de nutrir-te
não pedirão mais succo á larga terra.
¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,
sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!
A copa verde que hospedava as nuvens,
ludibrio d'auras, arida esvoaça.
Mas ao menos feliz impresciencia,
don melhor que mil dons, te coube em sorte.
Dominas vastamente o ar e a terra,
sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,
e baqueias sonhando eternidades.
¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata
em nossos dias tua umbrosa pompa![{128}]
Emquanto a raça ephemera dos homens
vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,
tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,
medra pelo descanço; igual hospéda,
sorrindo sempre, as estações oppostas;
presta-te aos soes e ás luas, que sem conto
volverão sobre ti; sê caro asylo
ao favonio que em braços te adormeça,
e ás aves que em teu seio se aninharem,
e soffre ou goza o teu destino immenso.
¡Ai, nunca de teus ares dominando
pela terra de Luso oiças ou vejas
da civil guerra as armas fratricidas!
Inda agora nos eccos d'estes montes
os seus trovões sacrilegos retroam.
Inda em nossos ouvidos estremecem
quadrupedante estrepito, relinchos,
retinir d'armas, rufos de tambores,
rolar de carros, vozear de chefes,
e os gritos do clarim, pregões da morte,
¡Que esposas inda agora estão carpindo!
¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!
Do sangue a côr maldita inda denigre
esses campos de horror; e as sepulturas
dos sem numero extinctos nos combates,
não florirão inda esta primavera.
Do raio o fumo a Lusitania assombra.
Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,
da innocencia e do amor irman e amiga,
alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.
De opulentos avós mesquinhos netos,
já não pedimos bens: aos descendentes
do povo infesto a Roma e Rei do mundo,
basta um pouco de pão em paz comido.
Sobre os antigos loiros desfolhados
caiba-lhe ao menos respirar dormindo,
¡Que ideia tão inhospita e gelada!...
¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!
¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!
Ó lua, vem propicia á joven planta;
e tu, doirado sol, propicio volta.[{129}]
¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?
¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!
¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.
Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!
enchei-lhe a taça, beberemos todos.
Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia
leval-o-hão consolado á foufa cama.
Agora, que estou só, que apenas oiço
o mui longe cantar das fiandeiras
na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos
ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,
candida imagem de Maria ausente!
segredarás aquella de que és sombra,
que para ella está guardada a gloria
de casar algum dia uma roseira
ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema
da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!
[XLIX]
Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.
¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por mais que faça.
O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.
S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá dentro seductores phantasmas de mulheres.
Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios terrestres formosissimos.