Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a escutál-o.

Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.

Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle[{130}] vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.

O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o que se escrevia; era sim o que se me ia

de noite em leves sonhos que mentiam,
de dia em pensamentos que voavam;

lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:—É um visionario, ou está sonhando;—e não é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.

D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.

Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á Pedra Branca, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos[{131}] ventos, de rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:

Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.

Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!