Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.
¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado aos bustos de Sapho[{132}] e Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.
Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por baixo de cada passo.
[L]
Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.
Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.
O immortal autor da Epopeia naval portuguesa, o meu bom e velho amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que obsequiosa—lisonjeira.
Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as Cartas d'Ecco, Primavera, Amor e Melancolia, até ás presentes paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno simplicissimo.
Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se no Universo.[{133}]
Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.