Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.
Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.
¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.
Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha[{134}] predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor senão de ternuras.
Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.
[LI]
Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema geral e perfeitissimo.
Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade[{135}] ¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do Camões:
Transforma-se o amador na coisa amada
por virtude do muito imaginar.
Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas trevas, alimentam e aditam a existencia.