Girará n’estes ares, revolvendo
Da passada existencia almas lembranças.
FIM DO POEMETTO
NOTAS
AO
POEMETTO ANTECEDENTE.
[Pag. 109.] verso 10.
Com seus trovões, com seus coriscos horridos.
Trazia este verso na primeira edição a seguinte Nota—Eis àhi os primeiros esdruxolos que fiz em minha vida, e espero que sejão os ultimos, ainda que por isso que fique excluido da communhão de certa Seita moderna.—Supprimi-a, e no declarar o porque, vou dar não equivoca prova da minha candura. Prezar-se um escritor de mais amigo da verdade que de Platão e de Aristoteles, alguma couza he; mostrar porem que mais do que a si proprio a ama, certo que não he vulgar o exemplo, e esse tenho eu dado, e não raro, ja fallando ja escrevendo limpa e rasgadamente o que de minhas Obras me parece. He um bom propozito que eu fiz em meu interior, e espero não quebrantar nunca, não só porque de si he honesto e nobre, senão que por este meio, o qual não custa mais do que algum suspiro á nossa vaidade que sempre se torce e confrange de ser mostrada nua, me estremarei da manada dos charlatães literarios, de quem nem o estomago me consente fallar. E porque chegue por direito caminho á questão dos esdruxolos, recordarei com vénia e boa paz dos leitores, o que ja no Prologo da terceira Edição das minhas Cartas de Echo deixei tocado; com a differença, que d’esta vez o farei mais explicitamente.
No tempo em que eu cursava meus estudos na Universidade de Coimbra, florecia ella com muitos e bons engenhos de mancebos dados ás Bellas-letras. E porque ainda então se não tinhão accendido os desastradissimos odios das parcialidades políticas, a Hobbesiana propensão de guerrear se exercia nas letras. Duas seitas de escrever se contavão; a cada uma das quaes não faltavão admiradores, apostolos e evangelistas, assim como por isso mesmo inimigos, escarnecedores e parodiadores. Os Livros em que uma juramentava os seus adeptos, erão Gessner e Bocage; Filinto era o Alcorão da outra. Gessner quanto ás couzas e affétos, e Bocage quanto ao térso e lustroso de estilo e metro, erão os idolos de uma; os da outra erão, quanto a couzas e affétos Filinto, quanto a estilo e metro Filinto, e Filinto quanto a tudo em que Filinto podesse bem ou mal ser imitado. Tinha cada uma d’ellas suas vantagens e seus descontos, como agora claramente diviso, quando as considero com animo livro e desassombrado de preoccupações. Não fallarei aqui de Gessner, porque ja no Prologo o fiz; confrontarei somente, e de corrida, Elmano e Filinto.
A ambos dotára natureza de talentos, bem que entre si diversissimos, assaz fortes todavia que podessem cunhar á sua feição a poesia do seus tempos. Elmano, que talvez em seu genero nos ficará sendo unico, de fôrça devia deslumbrar e encantar pelo caudal inexhaurivel, brilhante e estrepitoso de sua vêa, que eu appellidarei, e ria quem rir, um Niagara de talento: e assim como, os que pasmão deante d’essa grande catarata de puro embevecidos em sua cópia e magnificencia, não tem olhos para notar o esteril do seu curso, o assolador do seu ímpeto, e os penedos que rója envoltos e desfarçados com suas aguas, assim os que presentes assistirão ao poetar de Bocage, ou da tradição o receberão, fascinados com os seus estrondos, espumas e iris, mal se podem lembrar de lhe desejar afféto, sizo, e exatidão, que muitas vezes lhe fallecem.