Que não paga de um Deos, de um Ceo não paga,
Ouzaste pregoar mais Ceos, mais Deozes.—
versos, que parcamente lançados, como nas Obras de Virgilio, tem graça; semeados a frouxo são affeites e desdoiros do estilo.
Do seu gôsto ja me julgo dispensado de fallar, porque me parece que o que d’isso podéra dizer por si mesmo está nascendo do que fica dito. Concluamos: o que de Bocage digo em geral, com suas exceções se ha de entender, porque por uma parte muitas paginas ha suas, mormente em algumas traduções do francez, onde parece lhe esqueceo pôr o tal verniz de dicção e sons que para si inventára, e de que a ninguem deixou a verdadeira receita: e por outra parte tambem, obras ternos suas, mormente sonetos e traduções latinas, cabaes e redondissimamente perfeitas.—Passemo-nos já a tomar iguaes contas a Filinto.
Muito mais melindroso he este processo, até porque ja o querer tomar-lhas será para seus apaniguados um crime de leso Apollo, e primeira cabeça. Valha-me porem a declaração que faço, de que em tudo quanto disser, não seguirei outras partes que as de minha razão, declarando previamente que muito pouco dou eu mesmo por ella; mais são consultas que faço que sentenças que profiro, e antes exercicios de imparcialidade do que acintei de inimigo: de ninguem o sou, quanto mais de poetas, de perseguidos, de velhos, de mortos. Foi tempo em que eu, obscuro poetastre do Mondego, ria e vazava epigrammas contra o tradutor dos Martyres: hoje se me afigure muito mais valioso. He elle o mesmo, mudei eu; Deos sabe quantas vezes mudarei ainda com os annos: do mudar não he nossa a culpa; nossa he porem, e feíssima a de persistir no erro conhecido; se a republica literaria tivesse inquisidores, por heresia e contumacia que não havião relaxar ao braço secular. Ha por ahi muito homem do meu officio que possa dizer de si outro tanto? Mas deixemos esses que estão vivos, e vamo-nos a Filinto.
Se he ou não creador, ja vi ser renhida questão entre ociosos: para mim tenho que semelhante titulo mal lhe pode caber. O frequente verter ha pouco disse eu que denunciava esterilidade; e podéra accrescentar uma sentença ainda mais desabrida, que ha muito encontrei, cuido que nas Lições literarias do Doutor inglez Blair, e que muito me caío; a saber, que o costume de traduzir, bem que olhado pela rama pareça dever ser frutífero, sempre ao cabo vem a desgastar-nos a faculdade inventiva. Compara-lo hei com o linho, que apezar de tão precizo no mundo e de tão agradavel aos lavradores depois de colhido, por isto só desgosta a muitos d’elles, que a terra onde se criou fica magra, e como elles dizem queimada para outras novidades. Muito mais de metade dos tomos de Filinto trazem no titulo os nomes de autores estranhos, devendo-se ainda lançar a este rol por boa restituição, bastantes Obras, que talvez por descuido, imprimio sem nenhuma menção de serem, como erão, vertidas. As imitações são no merito e inconvenientes meias traduções, e as do nosso poeta são numerosissimas, disfarçadas umas, outras manhosamente dissimuladas. No resto que he de sua lavra, apenas se nos depara couza que abone talento original e produtivo a: são os chamados lugares communs de poesia filosofica, que ja por safados custão a passar, e as tão esfalfadas visões e apparecimentos de Apollos, de Musas, de Amores, de Pégasos, e de outros mil defuntos, a quem o tempo ja comeo o balsamo, e que todavia são ainda a unica povoação de quasi todos seus poemas, tanto jocosos como sérios. Algumas vezes me vem desconfianças de que n’aquelle passo da Sátira do Bilhar, em que o nosso Tolentino parece rir de certas Odes, contra Filinto hia tirada a seta de sua crítica:
Co’as verdes mãos o serpeado Tejo
Alça o trilingue, mádido tridente;
Mas que Górgona filtra? eu vejo, eu vejo ...
Em dizendo isto he Ode certamente.