Em affétos porem sobreleva a Bocage, e não abunda. A espaços lhe vislumbrão assomos d’aquella sismadora melancolia, que mais ou menos respira em todos os bons poetas. As amarguras e saudades, que em tão larga vida e desterro lhe não faltárão, alguma, e não rara vez, lhe soprárão versos amoraveis, e deliciosos de tristeza. He este de todos os dotes de poeta o mais caramente comprado; sendo assim que Deos sabe quantas vezes em applaudir um verso que nos toca, batemos por ventura palmas a calados infortunios de quem no-lo escreveo. Não nos assuntos ditos sentimentaes se conhece tanto o verdadeiro sentimento, como nos de indole mais fria e izenta; porque, se n’estes ultimos apparece inesperada uma palavra maviosa, n’uma flor de festa uma nôdoa de lagrima a descuido, ahi vem o infallivel documento de ternura e suavidade: e d’estas sombras de lagrimas, d’estas palavras, maviosas achamo-las em Filinto.
Na sciencia he que elle mais notoriamente leva a palma ao seu contendor. Que muito? com o dôbro de vida, com precizáõ de estudar para se divertir das mágoas e ganhar pão, com o ar e tráfico de Paris onde todos inspirão e expirão letras, e com tão espaçosa velhice, pingue quadra em que as paixões quietando nos deixão todo o silencio, remanso e curiosidade necessarios para o estudo! Tornarão-se-lhe familiares os classicos portuguezes e latinos, de uns e outros dos quaes talvez Bocage não tivesse acabado dois ou trez volumes; familiares os classicos francezes, hespanhoes e italianos, e ainda as versões dos inglezes e allemães. Á roda d’elle chovião de dia a dia, e de hora a hora, os frutos novos de todos os ramos das Sciencias, de que he impossivel a quem por lá vive não provar, até sem querer, e ao cabo não se nutrir e fortificar. Entretanto repararia eu, se o ousasse, que para quem logrou concurso de tão favoraveis circunstancias, como as que a sua má estrella lhe deparou, não saío Filinto o que se podéra esperar de noticioso e culto; e ou desaproveitou o maná que ás mãos do espirito lhe chovia, ou se o tomou lhe não luzio. Á primeira d’estas duas conjéturas me inclino, porque segundo o que de seu natural alcanço por suas Obras, parece-me que na lição das estranhas mais se hia á caça de vocabulos e frases curiosas, insolentes e atrevidas, do que de doutrinas e filosofia. A sua era meã e usual: cançados louvores á Liberdade, á Amisade e á sã Virtude, ao estudo, ao descanço e ao deleite, alguns arremeços de encontro aos Bonzos e Naires, eis ahi sondado até ao lastro o seu poço de saber moral: alguma historia não rara antiga e moderna, eis todo o seu saber positivo; e todo o seu saber natural, alguns dos principios geraes e diarios das Sciencias fisicas. E certo, que se mais avultados fossem estes seus cabedaes, e vêa mais fecunda lhe consentisse anciar mais altas couzas do que palavras e frases, não se deixára ficar tanto atraz no meio de um seculo novo e alado de poesia; não se contentára o seu estro abstémio com a agua do Parnaso até á ultima hora da vida; e não nos deixára seus volumes pejados quasi só de fabula, como armarios de muzeu antiquario, onde se não vai procurar qual he o mundo em que vivemos, mas deduzir de troncados e desluzidos fragmentos, o que em tal ou tal parte da terra houve lá n’outros tempos, com os quaes e com a qual só pouco ou nada temos. Diz um Escritor insigne[12], que a poesia assim como ontr’ora viveo de fabula, revive hoje e se apascenta de verdade. Melhor dissera que de verdade viveo em todos os tempos a nobre poesia, pois que o que para nós se descubrio fabula, era nos dias em que appareceo e florio, verdade de factos, ou capa allegórica de verdades, mui crida e sincera.—Resumamos; Filinto soube mais que Bocage, menos do que podéra, e diverso do que devêra saber.
A linguagem, de que pela ordem se me segue fallar, mais requeria n’este caso um tratado, do que uma nota de fugida. Algum dia o tentarei, quando me achar mais de assento e sobre mão do que agora, que as justas raias d’este escrito me estão tolhendo. He a linguagem e elocução a principal feição caraterística de Francisco Manoel, como de Manoel Maria o he a harmoniosa elegancia.
A torrente das hipérboles e conceitos hia arrazando e engolindo todo o nosso Parnaso, quando para lhe pôr a ella diques, e a elle salva-lo, e repovoa-lo de natureza, appareceo a Arcadia. Detençosa e ardua se representava a obra, como aquella em que a razão nua tinha de lutar com a imaginação delirante. Para anteparar ímpetos de vêa tão engrossada com as contínuas nascentes e tão copiosas de Italia, Hespanha e Portugal, ja tão senhora do leito e dominadora das margens, era mister que braços fortes lhe levantassem muralhas solidas de grossa e pezada cantaria. Virão os Arcades como lhes estavão á mão as obras, não todas primorosas, mas quasi todas massiças dos nossos quinhentistas e dos romanos classieos: erão accommodadas ao intento, dizião com seu gôsto e costume; valerão-se d’ellas, accrescentarão-lhes as suas proprias, levantarão o muro; bramio, quebrou e escoou-se a inundação. Raro he o bem, que só porque o he, não traga outros comsigo: dos trabalhos, que havião tido por fim acabar com os nojos e puerilidades do falso engenho, nasceo um conhecimento mais profundo da linguagem, mais extremoso amor á sua pureza, e o comêço do encarniçado e ainda não findo pleito, entre a puridade e o gallicismo. Verdade he que n’este segundo campo se não guerreou com tão favoravel marte como no primeiro, porque se as maravilhas da Fenix Renascida passárão, os gallicismos fôrão em successivo crescimento, sendo ja hoje tão caudaes e trasbordados, que princípio a desconfiar não haverá remedio senão rendermo-nos, encruzar os braços, e deicharmo-nos ir ao fundo: tanto estou convencido de que nem a propria razão he poderosa contra o espirito de um povo: e a final de contas, Deos sabe, até n’isto, o que he razão!
Era Filinto, por sua amizade e commercio íntimo com os sujeitos de maior credito na Arcadia, e por motivos de sua propria conveniencia, homem que de necessidade devia entrar na pendencia, e sustenta-la até á ultima: n’isso assentou, e o cumprio mui pontualmente. Entendeu desde todo o princípio, como aquelle a quem não fallecia bom juizo, em se prover das armas seguras e bem temperadas, sem que lhe não conviria arriscar-se no combate: e se as defensivas que vestio lhe podessem ter saído tão impenetraveis ás setas do ridiculo como as offensivas que meneou erão fortes e penetrantes, guapissimo Cavalleiro houvéra apparecido, e invencivel. Do antigo portuguez e do latim instituio concertar toda sua armadura: com diurna e nóturna mão versou pois os monumentos de ambas estas linguas; e quanto do portuguez ja feito se podia enthezourar, ou se lhe podia accrescentar por derivação, por composição, por analogia, por translação, ou por qualquer outra licença poetica, sem embargo de desenvolta e extrema, tudo ouzou com ardimento verdadeiramente admiravel. Fez estranheza a novidade, offenderão-se os mimosos com o escabroso e difficil de tal estilo, arripiarão-se os pusillanimes com o arrôjo, os ignorantes e priguiçosos com a immensa fadiga que bem vião seria necessaria para entender, não só imitar e seguir, quem tão por fóra caminhava das veredas batidas e vulgares. Todos estes, e com elles os invejosos, saírão em campo, combaterão, e apuparão, e quanto mais apupavão e combatião, mais recrescia em Filinto o acintoso proposito de se não descer do começado, antes encarecê-lo sempre até o ultimo ponto. Outra causa havia que para isto lhe fazia fôrça, e era conhecer como sem estes bordados, recamos e relêvos de frase, o cabedal de suas galas poeticas appareceria, qual em realidade era, grosso, commum e de mui baixa valia. Mas quer o movesse esta causa bem perdoavel, quer fosse generosidade com que se offerecia aos motejos, e desapreço de muitos, com o só intuito de restaurar, e avantajado, o edificio do idioma portuguez, sempre fica certo que n’este particular mereceo mui bem de sua patria, e a deixou muito mais medrada do que a achára. Oxalá que dois ou trez mais, dotados de igual credito, pozessem como elle peito á empreza; e muito embora demaziassem como elle: cunhassem a flux tudo quanto dão as minas portugueza e romana; ainda muito oiro puro de dicção viria enriquecer-nos, e facilitar-nos o tracto; pôsto que tambem como elle lá cunhassem á mistura oiro enfezado, não de lei, nem de receber: o juizo público estremaria umas de outras moedas, e as engeitadas a ninguem farião mal, se não fosse ao credito de seu autor. Assim crescêra cabedal, que ainda mingoa para as obras do engenho patrio. Nossa lingua, qual por ora a temos, e até restituindo-lhe todos seus fóros caídos, todas suas joias enterradas, não supre as hodiernas precizões do espirito. Quando a esfera do saber, sentir e pensar se está de hora para hora dilatando no mundo, do qual nós outros (ainda que o não pareçâmos) somos tambem parte, forçado hé que a esféra da expressão ao mesmo compasso se dilate, e engrandeça. Repôr ao idioma quanto ja teve será louvavel consciencia, porem não bastará, se apoz isso se lhe não dér com mão liberal, mas prudente, quanta substancia nova elle possa receber e commutar, para que na apostada carreira que os entendimentos das nações agora levão para o infinito desconhecido, o da nossa, por fraco e sem azas, se não deixe ficar atraz.
Uma reflexão quero eu aqui fazer, mais que a taxem de digressão; não será nova para os que escrevem, mas servirá para que os que lem se abstenhão mais de acoimar pobrezas em nossos poetas. Ja das palavras se averiguou serem ellas fio e arrimo de que a mente se vale para melhor ir seguindo por suas ideas sem queda nem tropêço. Pois se as palavras, que não passão de reflexos e retratos do pensamento, tem virtude para o fecundar, menos ainda se duvidará precizar a imaginação poetica de uma abundante linguagem, para se manifestar por obras, assim como o pintor de finas e variadas tintas para seus paineis, e o musico de instrumento pronto e copiosamente registado, para enlevar os animos. O poeta francez, porque tem uma lingua que á fôrça de bem cultivada por muitos e differentes engenhos, se accommoda préstes e serviçal aos pensamentos mais subtis e novos, e aos affétos mais delicados e passageiros, d’ella se ajuda para inventar, e com ella exprime completamente o que inventou. Não assim nós, que em pertendendo alçar-nos por cima das communs ideas do nosso paiz, nos achâmos, sem o cuidar, pensando em francez; e se isso, que bem ou mal nos apparece na alma, tentâmos passa-lo para o papel, suâmos, bramimos, aqui nos faltão de todo as expressões, ali só tibias nos acodem, outras mal determinadas e mal entendidas, outras estiradas em perífrases. Dai-me o proprio Lamartine nascido nas margens do Tejo, e pedi-lhe uma só Meditação, uma só epocha de Jocelyn; grande será o acêrto se as conceber, quasi impossivel que as escreva. Ponderou Condillac mui avizadamente, que a razão porque apparecião em certo povo e tempo maior numero de varões abalisados em letras, era o ponto de crescimento e sufficiencia abastada a que chegou n’esse tempo a lingua d’esse povo. Melhor será que o deixemos por sua boca doutrinar-nos, que bom missionario he em couzas d’estas.
“Acontece com as linguas (diz elle) o mesmo que com os algarismos dos geómetras: quanto mais perfeitas são, mais vistas novas nos offerecem, e mais nos dilatão o espirito. Os bons acertos de Newton de antemão havião sido preparados pela escolha dos sinaes que antes d’elle se fizera, e pelos methodos de calculo ja imaginados. Se mais cedo nascesse, podéra ter sido homem grande para o seu seculo, mas não fôra agora maravilha d’este nosso. Outro tanto vai pelos demais generos. A boa fortuna dos engenhos mais bem aparelhados inteiramente depende dos progressos da lingua no seculo em que vivem, porque os vocabulos correspondem aos algarismos dos geómetras, e o modo de empregar os vocabulos corresponde aos methodos do calculo. Por tanto, em uma lingua aonde ha penuria de palavras ou de construções bem azadas, ha os mesmos obstaculos em que a geometria topava antes do invento da algebra. O idioma francez foi por largo discurso de tempo tão pouco ageitado aos progressos do espirito, que se imaginarmos Corneille em cada um dos seculos ascendentes da monarchia franceza, quanto mais ao remontar nos fôrmos afastando do em que viveo, tanto mais, e gradualmente, irá mingoando o seu engenho, e chegar-se-hia por ultimo a um Corneille que nenhuma prova poderia dar de talento.”
Voltemos a Filinto. Não decedirei se houve ou não bom fundamento para o allegarem por autor e texto, como o fizerão na quarta edição do Diccionario de Moraes: nem ouzaria eu pôr mão no fogo pela infallibilidade de sua pureza, porque (mas a medo e sommisso vai o dito, que por dito e não sentença merece vénia) aqui ou acolá se me figura enxergar por suas paginas algumas nódoas d’aquella mesma côr a que nunca perdoou odio. Mas se as ha, são manchas, no passo que o geral de sua escritura he recheado de muitas preciosidades para quem poz peito a bem escrever esta lingua. Por toda a parte lhe estão pullullando lusitanismos em vocabulos, frases, collocação, inversões, geito e feição de períodos, que se houver gôsto em quem lê para os joeirar e limpar de alguma mistura chôcha ou sédiça, farão muito bom sustento para poetas e prozadores. Se houver gôsto, puz eu, e muito que o puz de indústria, porque, os que d’elle carecerem, lição tal só os fará mais ridiculos; os que ainda o não houverem formado, e se metterem por esses onze e mais volumes sem bom e constante Mentor, não sei se em linguagem e em poesia viráõ nunca a dar fruto que bem saiba e se abençoe.
Em summa, Francisco Manoel do Nascimento foi um martyr da religião de nossa lingua: para lhe lançar mais gloria cerceou a sua propria: com o excessivo das joias com que a arreou, deixou-a affétada, e menos matrona grave do que bailarina de corda; sim habilidosa e leve, mas dengosa e presumida: mostrou-lhe o como e por onde devia subir á perfeição, a que por outros, porem tarde e mui tarde, será levada: foi, porque tudo diga, um destemperado despertador, que nos poz a pé para o dia das letras.—Quero repetir, fez serviço talvez maior que nenhum dos classicos, mas he de todos o menos para seguir ás cegas. Bem haja elle que tocou a alvorada para nos acordar, mas mal haja quem quizer ficar com trombeta tão rouca e dissonante a tocar alvoradas todo o dia: ja estamos acordados, cabe agora aproveitar o tempo, como gente de juizo.
Se da lingua passâmos em Filinto á harmonia métrica, damos maior salto que o de Léucade, e como cumprindo igual oraculo, ou nos afogamos em um mar bravo, ou de lá surdimos curados de todo o amor a tal poeta. Em nenhuma das quatro ou cinco partes do globo, e em nenhuma era se metrificou jamais lão dura, desleixada e insolentemente. Se alguma vez se esquece com dois ou trez versos bons, logo se vinga com duas ou trez duzias, que se os reduzissem a linhas iguaes, não serião mais nem menos que desaceiada proza. E ainda he para agradecer quando só lhe falta melodia, porque algumas vezes nos dispara versos, em que as pauzas vem todas desconjuntadas, e outros, em que sobejão síllabas, por mais que a maço as procuremos entalar e embeber umas por outras.—A sua rima he por via de regra desnatural a pobre: os seus sonetos e toda sua lírica de consoantes, enxabimentos ou arripíos. Bem se alcança como erão arrufos de maltratado, as injurias que em muitas partes vomitou contra a rima, e não como as de Boileau, vozes só de um juizo rigoroso, que de dentro das letras as media. Nos defeitos de versificador fez de idade para idade successivos enotados progressos, sendo assim que ou por desleixo, ou por certa petulancia, em que engenhos grandes muitas vezes cáem, tomando por timbre o escarnecer do Publico, quanto mais hia usando do officio, tanto mais desprimoroso se foi mostrando, até ganhar tão duro callo na consciencia, que nem a deliciosa harmonia dos versos de Racine lhe podia ja ao cabo inspirar, um só verso toleravel de tradução.