Do muito que só deixo apontado se deduz a idea que para mim tenho do seu gôsto; melhor será do que só deixa-la deduzir, declara-la. Parece-me pois ser o seu gôsto pouco e máo; e n’isto estribo o parecer: 1.º que para suas Obras originaes costumava de escolher fracos sujeitos—2.º que as pejava de taes invenções que ja em tempo de Romanos o não erão—3.º que por vida se repete, e por costume redunda—4.º que na ordem desordenadissima em que seus escritos pôz, anda o peor tão travado com o melhor, e as puerilidades vergonhosas com as Odes que lhe lucrárão nome, que sem que o lustre do bom disfarce o máo, o esqualor e nojo d’este deturpa e estraga aquelle—5.º que se para traduzir elegeo ás vezes bons originaes, taes como o Oberon e os Martyres, outras os escolheo desenganadamente incapazes, taes como a triste historia em verso da Guerra Púnica: outras vezes, escolhendo originaes optimos, nem antevio, nem pelo discurso do trabalho conheceo, nem sequer sentio depois de findo (porque talvez se o sentisse nos houvéra poupado a ler a versão), que havia n’essas Obras exclusivos e essencialidades, quer da lingua em que estavão feitas, quer do engenho que as fizera; haja vista ás tão graciosas e admiraveis fabulas de Lafontaine, que em Filinto parecem tanto as mesmas, como a estampa de Bertoldo se podéra julgar retrato do Apollo de Belveder. etc. etc. etc. etc.

Taes são hoje para mim Filinto e Bocage: mui outros dos que ja me parecêrão, e talvez dos que me hão de parecer quando novos livros, novas couzas, e o rodear dos annos me houverem feito sou ordinario e incontrastavel officio. N’aquellas eras pois, que ja eras antigas se me representão aquelles meus tempos, caía todo com o meu Gessner em braços, para a parte de Bocage, mancebo e lustrozo; e se me figurava que se lograsse trava-los, fundi-los em um, faria obra de se me agradecer. Os partidarios de Filinto, que não sei porque, trazião guerra declarada com Bocage, vierão saindo de seus montes escarpados, empeçados e tenebrosos, para dar váias e tirar remêssos de epigrammas ao nosso bando: cerrámo-nos com a bandeira, démos sobre elles com iguaes armas, foi batalha campal, rôta e sem misericordia: não houve mórtos nem cativos, poucos transfugas, feridos muitos. Recolhidos nas trincheiras, cantámos uns e outros, como he costume, o Te deum da vitoria; dobrámos a altura aos vallos, e profundez aos fossos que nos estremavão; jurámos não acceitar nunca pazes, quanto menos commette-las, nem consentir em alguma couza que ás dos inimigos se parecesse. Eu que fôra dos mal feridos e ainda palpava as costuras, como havia de faltar a nenhum ponto da conjuração? Muitos d’elles merecerião tratados, mas porque não fazem para o fim d’esta Nota, venho aos esdruxolos, e só libarei a materia.

Da natureza, como quer que seja, nos vem sempre o gôsto; mas sendo que a moda, que muitas vezes se gera de um acaso, introduz o uso, e este chega a mudar ou alterar a natureza, vem a ser o gôsto em muitos casos enleada materia e muito esquiva para questão, abonando-se talvez por ahi o proverbio, que sobre gôstos prohibe disputar. Dir-me-hão, que nada tem a natureza com os métros, que só a moda a seu talante os cria e os acaba: he e não he verdade; mas tambem isso deixaremos de parte, por pedir digressão larga e mui sobida filosofia. Em breve, parece-me que a fantasia ou o acaso inventa os métros, a moda os espalha e rege, a nossa natureza se lhes affaz, mas deve quanto podér afeiçoa-los e conchega-los comsigo. Das dez, onze ou doze síllabas de que pode constar o nosso verso heroico, quiz a moda que o numero de onze fosse em Portugal, Hespanha e Italia o usual e corrente; moda que estribou no ser d’estas linguas, em que a quantia de vozes graves excede á das agudas e dactílicas. Costumou-se o ouvido com a igualdade da queda, criou uma certa natureza, e todas as vezes que inopinadamente o obrigão a outra queda maior ou menor, como que se espanta e sobresalta: porei exemplo nos que sobem ou descem ás escuras e ja pelo tino uma escada; se lhes falta no subir um degráo com que ainda contavão, o pé que no ar pôz firmeza cáe em falso, e comsigo leva todo o corpo estremecido; se lhes sobeja um no descer, o pé que ja se dava por assente, não desce mas atropella e traspoem. Por tanto, regra geral, o verso grave, que he o da moda e tambem o da nossa natureza, he o de que nos deveremos servir: como porem entre as couzas sujeitas á poesia, se nos deparem algumas, cuja indole póde ser esse mesmo estremeçáõ, ou atropellamento, razão será que em taes casos bem averiguados e por via de excéção, acudamos á idea com o verso que melhor lhe condiz: os exemplos são faceis de colher nos autores, não gastaremos com elles papel. Ora para se consentir n’esta excéção, não deixa de haver outro motivo de algum momento, e verdadeiramente he elle o mesmo em que a regra geral se fundou; porque as estranhezas, que por desagradaveis persuadírão á regra, por uteis nos conformão com a excéção, sendo que tem virtude para nos espertarem, quando o embalar da monotonia nos vai adormecendo. Não por outra causa, vierão os melhores metrificadores latinos em variar, ainda que rarissima vez, os seus hexámetros perfeitos com o espondaico ou com um monosíllabo final: ambos nos abalão; os primeiros em certo modo como os esdruxolos, os segundos como os agudos; e abalando-nos a propozito, por exemplo para sentirmos a queda do animal no famoso procumbit humi bos, deixão-nos afiados para proseguir com attenção, e melhor tomar o gôsto ao caminho, que outra vez continúa lizo e macio, passado o tropêço.

Assentámos o princípio, vejamos se o uso lhe tem sido conforme. A Italia, attenta a prontidão, e musica de sua lingua, devêra ser d’estes trez povos do sul o mais aprimorado em toda a qualidade de metrificação, e todavia he o contrario no hendecasíllabo sôlto, podendo dizer por si o que o seu Ovidio poz na boca de Narciso, que a sua riqueza a fez pobre: os seus poetas, ainda os modernissimos, sôbre não curarem dos sons que recheão o verso, e quantas vezes nem das pauzas, sôbre estirarem desmesuradamente os seus períodos, consentindo que os versos se travem e encadêem de contínuo, misturão sem nenhum motivo de effeito, os versos agudos e esdrúxolos com os graves, segundo o acaso lhos vai deparando. He o mesmo que succede a quem possue terra de sobejo fertil e facil: ella que supra por si ás primeiras precizões; trabalhe-se o necessario para que não falte, o resto, que bastaria para a fazer paraizo, dê-se á priguiça. Os francezes, que tão menos poetica lingua tinhão, obrigados por essa mesma pobreza a cultiva-la, esmerados e incançaveis, ¡quanto a não levão ja por arte, adeante do que por natureza podéra ser a italiana! são n’uma parte os paúes de Hollanda a produzir; na outra, terras pingues e dobradas de Otaiti a regalar com pão e frutos espontaneos aos semi-nus e ociosos naturaes. D’este versejar de italianos, me dizia uma vez José Agostinho de Macedo, que a maior parte de taes poesias lhe dava a lembrar as récuas de mulos de almocreve, que enfiados e prezos uns a outros, ao som dos chocalhos enfadosos, la se vão, ora tropeçando ora erguendo-se, continuando o caminho, e sempre chegão com a carga onde tem de ir. Quando assim fallo, quero que se entenda que me não refiro a todos sem excéção, mas só ao geral d’aquelles poetas. Bem pode ser que os haja agora primorosissimos que eu não conheça, e dos conheçidos alguns ha com quem não serei tão severo taes como Monti na tradução da Illiada, Fóscolo se me não engana a lembrança que d’elle me ficou, Alexandre Manzoni, e Felice Romani.

Em Portugal, pois que a lingua era tambem préstes e serviçal, e os que n’ella poeta vão se comprazião de se irem sempre na pista dos Toscanos, sente-se nos poetas antigos o mesmo desmazelo. La andão com os versos graves os esdruxolos inuteis, ainda que não frequentes e os agudos aos cardumes. Camões, que de todos elles foi por ventura o de mais delicado ouvido, rimando hendecasíllabos, até na epopea não duvidou em os pôr, quando acaso lhe apparecião, e sem nenhuma intenção ou fito poetico; o que a Vasco Mauzinho de Quebedo seu inferior em poesia, mas superior, se he lícito dizê-lo, em metrificar, por tal arte desagradou, que em todo o poema de Affonso Africano nunca interpolou com elles versos graves, e d’isso faz alarde em seu prologo.

N’esta incerteza correo a couza até os nossos tempos, em que dois homens de fôrça, dois athletas da poesia, representando cada um uma das encontradas opiniões, devião ter perante os olhos publicos um calado e rijo certame, para decisão ultima da contenda. Foi Bocage o mancebo, cavalleiro da metrificação liza e uniforme; o velho Filinto da mista e libérrima. Todo o empenho de Bocage era a harmonia constante, todos os seus versos forão graves, e de compasso batido. Nascimento queria por cima de todas as outras couzas dar todas suas ideas, boas ou más, graudas ou miudas, mui bem pintadas e repintadas, que ainda quando insignificantes, não deixassem de ferir na vista. Servia Bocage ao metro como a senhor: Nascimento, como de escravo se servia d’elle, trazia-o rôto, contrafeito, demudado, e por todas as ilhargas estalando com o pezo da carga. Se he lícito comparar estes dois poetas com outros dois romanos, de muito mais subidos quilates, digo, que são na metrificação hendecasíllaba, o que nos dístichos elegíacos eróticos forão Ovidio e Propercio. O dísticho de Ovidio he sempre torneado por medida, nada lhe falta nem sóbra, reluz de polido, e algumas vezes pouco péza: nos de Propercio ha sempre mais succo de couzas (bastante espremeo d’elles Ovidio para seu remedio); mas o hexámetro sáe amiude desalinhado, o pentámetro dissonante da sua usual toada, acabando não em dissíllabo, como para bem o requer o geito de tal metro, mas em trissílabos e quadrissíllabos á moda de Catullo; partem-se menos apuradamente os hemistíchios, embebe-se e embrulha-se em demazia o pentámetro no hexámetro, e, o que mais rijo he, o hexámetro de um dísticho no pentámetro do anterior; o que não tira ser Propercio, em meu conceito, um poeta de mui alta valia (e não sei se diga que o unico amante apaixonado dos antigos, com licença dos grammaticos e dos priguiçosos que o engeitão por escuro), e Ovidio um dos mais bem assombrados engenhos do mundo.

Do que levo ponderado, se he exáto como cuido que he, segue-se que nem Bocage, nem Filinto erão para modellos absolutos, e que tão desacordado andava quem não consentia em verso que grave não fosse, como quem esdruxolava por vida e fóra d’aquelles casos em que o esdruxolar traz em si mesmo a desculpa e o louvor. Entendi que ja por acinte o fazião, e por acinte contra acinte escrevi essa Nota da primeira edição, que atraz deixo trasladada. Fôra o voto pueril, conheci-o assim como o sangue alvoraçado da batalha me esfriou, mas tão sobre maneira se oppunha a vergonha a uma retratação, que permaneci até hoje sem um esdruxolo em tantos versos soltos como tenho impresso, e tantos mais que ainda não saírão á luz. Quantas vezes, compondo a Noite do Castello e o Bardo, não senti tentações e ímpetos de romper e acabar por uma vez com uma prizão imaginária, que a olhos vistos me estava tolhendo mui bons effeitos poeticos; e comtudo confrangia-me, esquivava-me, escrupuleava, e não podia acabar comigo que me resolvesse, podendo dizer como aquelle rei de França La se vai tudo, menos a honra. Os passos d’esses poemas em que tal me acontecia, por si se estão indo agora denunciando, póstos os dactílicos imitativos nos lugares, que abaixo do final se podem reputar pelos mais autorizados e distintos do verso, que são o ponto do hemistíchio ou pauza do meio verso, e o comêço do seguinte, quando fica bem cortado e estremado. — D’este livro ao deante me dou por desobrigado do voto; e eis aqui, me parece, o como lã para os outros me hei de haver: nunca porer só por pôr ou por me forrar trabalho, verso dactílico; nunca o engeitarei quando a fôrça, graça ou qualquer outra vantagem da poesia o requererem. Bem quizera dizer outro tanto dos agudos, mas ahi ainda o meu antojo he forte; sei que a razão não está menos por elles, e não ouzo segui-la: veremos o que o tempo, grande causador de mudanças, poderá trazer comsigo.

NOTA
de Augusto Frederico de Castilho.

[Pag. 118.] verso 6.

Vejamos, meu Irmão, a tua escolha. &c.