Apraz-me por tanto boiar ainda por algumas horas ao de cima d’estas fantasias, e antes de se me apagarem, se já he que isso tem de ser, alegrar com o seu reflexo estas paginas, que mal poderáõ ser muitas: sempre he cedo para lançar pelas janellas fóra os brinquedos de nossa puericia; e mal haja quem o faz sem que todo o coração se lhe aperte dentro no peito.

Por isto que digo, entenderáõ meus leitores o porque, exhausta logo no primeiro anno a primeira impressão da Primavera, tantos se tem devolvido sem que jamais me deliberasse a reimprimi-la. Pelos fins de todos os invernos e começos da melhor estação, me era ella de todos meus livreiros requerida; por mais de uma vez me senti abalado, mas a lembrança do meu desencantamento me era sempre esquiva, e repugnava-me, como uma certa simonia, o arriscar-me a por alguns cruzados malbaratar uma dilicia do sanctuario de meu animo. N’esta parte não me entenderáõ todos, mas os meus intimos confirmarião com juramento o que digo. Agora porem que até a minha pobre bibliotheca já se ahi vai rareando e desfazendo vendida, e me importa pôr entre mim e a terra do meu nascimento muita outra terra de permeio, e Deos sabe para quanto tempo, obedeço aos desejos de muitos dos que ainda lem, ao conselho dos amigos, e á lei da necessidade. Reverei para a impressão, e perderei para mim este livro de saudades, livro que só fechado eu poderia ler como me convinha. E por quanto, depois de sua leitura talvez me desamparasse a vontade de aventurar algumas reflexões sobre este genero de poemas, fa-las-hei antes, e já aqui; deixando para o Prologo as que ácerca da Obra me forem por ella mesma suggeridas.

A Poesia campesina, ou segundo vulgarmente lhe dão nome, pastoril, com ser de todas a mais antiga, nunca em nenhuma parte se perdeo, dado em muitas decaisse não raro do seu credito e lustre; e segundo todas as mostras, deitará ainda até ao fim das idades literarias. Sempre moça como a terra sua mãi, mansa como os arroios seus irmãos, formosa como as flores que lhe guarnecem o chapeo de palha, livre e leve como os zefiros pela assomada dos montes, alegre, namorada e innocente como as aves na madrugada do anno, he de ver qual se vai sozinha e vivissima por entre tantas couzas mais fortes que morrem; com o seu cajado de pastora, segura entre tantos inimigos; girando todo o orbe, e por todo elle bem vinda; vingando e vencendo todos os seculos; dando a alguns d’elles de mais amoravel indole a sua propria fórma; e relevando-lhe, ainda os mais ferozes e guerreiros, que lhes ella misture com a sua frauta do serão os himnos da guerra, lhes entreteça maliciosa violetas com os louros, e os campos que elles a ferro e fogo devastarão os repovoe ella de imaginadas verdura, flores e felicidade.

Hum curioso reparo poderáõ ter feito os que os fazem no ler poetas, e he, que apenas haverá algum dos chamados Epicos, para quem o campo e sua vivenda não fosse deleitoso assumpto. Compraz-se Homero de travar com as façanhas dos heroes toques e pinturas do viver natural e primitivo; Virgilio, que ja primeiro que se abalançasse ás armas e guerras tinha cantado os pastores, e doutrinado os lavradores, particularmente se recreia quando no meio das batalhas pode a uns e outros mandar algumas saudades; nos dois Orlandos e em todos os livros de cavallaria, vai igual mistura; o mesmo na Jerusalem, cujo autor havia escrito o Amintas: e d’entre os nossos, para por todos citar um, mas um que por todos valha, Camoẽs, não só afamou os Portuguezes sujeitadores de elementos e homens, mas todo se deleita em conversar os pegureiros e campos da nossa graciosa Lusitania, terra cujos filhos, se me não engano, são por indole dotados destes dois extremos, de brandura e de valor, de amor ao obscuro rusticar e ao glorioso correr de aventuras e perigos: por onde entendo que para muito mais do que são os fizera Deos, assim como fizera para muito mais do que he o grandioso torrãozinho que habitão.

Disse engenho subtil, e bons juizos crêrão, que o desejo, ancia e esperança de bem que todos temos innatamente, era claro argumento de uma vida futura, ja que nesta se nos não deparava contentamento: assim tambem dissera eu, que este natural e universal gosto á poesia amena he um indicio de que, se jamais o homem foi homem e ditoso, la nos campos o foi; que as plantas d’onde nos brotão sustento e recreação, exhalão secretamente amor para os seus vizinhos, e que pelos saudosos valles das idades patriarchaes, em quanto os bosques não caírão para em sua vez se levantarem as muralhas, as bençãos do ceo orvalhavão muito mais amiude. Alguma couza farão para aqui palavras do meu Florian, que porque d’elle são as verterei de muito boa mente—“Oh se nós podessemos ler em seu original texto os bons autores d’essa Allemanha, enlevar-nos-hia a tanta singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras se estremão suas obras! Em conhecer a natureza, e especialmente a natureza campezina, levão-nos elles uma infinita vantagem: amão-na mais deveras, retratão-na com tintas mais fieis. Todos nossos poemas pastoris nada tem que ver com as meras traducções de Gessner. Ninguem jamais fecha a Morte de Abel, os Idyllios ou Daphnis, sem ja se sentir mais soffrido, mais terno, mais mavioso, e porque tudo diga, mais virtuoso que antes da lição. Não respira senão moral pura e facil, e virtude d’aquella que logo vem trazendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldea, que sempre á estação da missa havia de ler e reler Gessner aos meus fregueses: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se farião probos, todas minhas parochianas castas, e ninguem me havia de ao sermão adormecer.”—

Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui bem que o sabia comprehender e seguir. Isto não escrevia eu nem o dizia, mas amplamente o sentia n’esse bom tempo que ja la vai. Gessner não era para mim um nome, senão um individuo presente, um suavissimo contubernal; nem ja suas obras me erão livros, mas realidade, vida e mundo.—Sei que se não leva a bem o muito fallar um individuo de si proprio, mormente em publico, e mormente ainda quando esse individuo he tão mesquinho sujeito como eu: mas de que outra couza posso eu escrever? dos outros? não os conheço; erudito, não o sou; descubrimentos não os fiz, nem ja agora os farei: fólgo de espraiar conversa com os meus patricios, na falta de melhor assunto, fallo-lhes de mim e de meus gostos.—O mais selecto de todos elles era pois Gessner, no qual e na escolha de Poesias Allemãs por Huber, andou por alguns annos cifrada toda minha leitura, porque de quantos autores patrios meus conhecidos havião escrito e poetado de couzas rusticas, nenhum havia que ou por sobejidão de engenho e argucia, ou por mal cabida escuridade, ou pelo trivial do pensamento e dicção, ou pelo desageitado do metro, ou pelo urbano artificio do que lhes parecia singeleza, ou emfim por um não sei que de mais ou de menos, lhe não lançasse lodo e arêa no jardim que bem ao meio da alma me havia sido por Gessner plantado.[1] Muito aproveitei em tão boa escola: como poeta não, que bem o sabem meus leitores; como homem sim, que disso tive mui cabal e experimentada certeza. Minhas nativas propensões beneficas se arraigarão; minha interior aspereza, que todos de si a tem, se amolleceo; sentia-me palpitar no peito um coração da idade de ouro; esvoaçava-me na cabeça uma alma inteira de Arcade; compunha todo o meu economico futuro de uma choupana, um pomarinho, e pombas mui brancas e cordeiros mui nedios; em summa, se Florian fosse meu parocho, propor-mehia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. Assim, e por esse tempo, foi a minha Primavera improvisada, e como ella as Flores e as Quatro Partes do Dia, Poemas que brevemente sairáõ estampados, e inteirão com o presente volume o fragil monumentinho dos annos, em que fui tal, qual desejava permanecer toda a vida.

Passe ainda adeante a sinceridade: com vergonha não só minha, mas do tempo em que vivo, confesso que d’essa ingenua bondade, pela qual eu mesmo a mim me comprazia, o de mais (como espirito que era subtilissimo) se evaporou; parte se azedou no vaso com as más sementes de odio que de fóra lhe lançavão; o resto se recozeo e estragou ao fogo das civis dissensões: procuro-me e não me acho, ou se me acho não me amo. Ainda a minha antiga choupana, os cordeiros nedios e as pombas alvissimas se me fazem lembrados por uma noite de estio, mas riem menos, e não me acenão senão fracamente. Tanto vi e vejo de alhêas maldades, tanto tem procurado os entes mais abjetos e vis amargurar-me, que nem quasi na virtude acredito, nem na possibilidade de ser feliz: e este estado, se não he de todos o mais antipoetico, se na escola romantica pode até lograr os foros do bello ideal e ultimo sublime, pelo menos he o mais avêsso á filosofia e mansidão Gessnerica. Oh quando poderáõ os dois monstros, em cujas garras inexpertamente caí, quando poderáõ Politica e Romantismo dar-me um longe, uma sombra dos interiores commodos que me lá ficarão com a poesia natural e singela? E igual pergunta dolorosa poderia fazer o mundo, a ter um coração e uma voz. Ja quanto á Politica me calo, que esse voto fiz eu; mas quando será que o Romantismo exclusivo e tiranno qual se presenta, se gabe de perfumar entendimentos para o amor, de reclinar o amor como filho nos braços da virtude, e de transformar o templo da virtude em caza do contentamento? Quando será que outro homem, da laia e costumes dos nossos velhos, possa dizer na sinceridade da sua alma:—“Se eu fosse parocho, leria Byron ou Schiller á estação da missa, para tornar castas e probas as minhas ovelhas”? Mas todas estas reflexões de nado valem: a torrente vai funda e rapida, ninguem, e muito menos eu lhe poria dique. E até (que tão pouco dou pela minha filosofia) talvez que tudo o que por ahi vai, que certamente: parece bem triste e bem máo, seja bem necessario ao concerto e melhoria do mundo. Não digo eu o que as couzas são, sim o que se me ellas figurão: não as sentencêo sem appellação; na minha primeira instancia as julgo, e o que moralmente me parecem isso assento com afoita liberdade. Perde ou ganha a humana especie em cada vez mais se apartar por obra, por palavra, e por pensamento, do rural e simples theor de seu primitivo ser? por minha experiencia affirmaria que perde, mas os sabios que o decidão, e a mim seja-me licito pôr duvidas.

Não me intrometterei com o que vai por outros reinos; esse uso de qualquer contrabandista literario de nunca chegar ás couzas patrias sem primeiro haver tocado nas de França e Inglaterra, não me quadra a mim, que ao menos tenho a sufficiente consciencia e pejo para não citar o que mal conheço: em Portugal me limito. Somos nós mais felizes ou melhores que nossos avós? Certo que não; e tanto, que se esses bons e honrados velhos podessem ter adivinhado quaes seriamos nós, nós herdeiros de seus nomes, escarnecedores de seus exemplos, e deshonradores de seus castos e amigaveis costumes; nós que ao seu velho fallar e escrever de deveres, substituimos o nosso novo fallar e escrever de direitos, e á moda de ter palavra, a moda de ter palavras, ter-se-hião horrorisado como de abominação, do pensamento de gerar. Acordai do sepulchro um d’esses anciãos, que depois de pagar inteira a divida a pai e mãi, viveo todo para a mulher, matou-se pelos filhos, guardou a palavra como religião, a religião como necessidade, e cada paschoa de flores, bem com Deos, contentissimo comsigo, se ufanava de sentar ao melhor lugar de sua mesa o parocho, e todos os seus vizinhos de envolta com seus filhos. Mostrai-lhe todos os nossos progressos, que em sós algumas vantagens materiaes e corporaes se resumem: alardeai-lhe o que esperamos, mas não lhe escondaes o que destruimos: lede-lhe a primeira pagina do primeiro Jornal que topardes d’esse mesmo dia, raza de impudencia, empapada com fel, estillando lagrimas, revendo sangue, suando calumnias e desavergonhamentos, respirando e soprando odios de nação contra nação, de cidade contra cidade, de familia contra familia, de irmão contra irmão, de povos contra reis, de reis contra povos, e dos homens contra a Providencia. Supponde que Deos lhe offerece renovação da vida, e offerecei-lhe vós todas as blazonadissimas excellencias do nosso viver e do nosso esperar: repellir-vos-ha com aquelle braço que antigamente defendia e não apunhalava a Patria; tapará com o resto da mortalha o rosto que só depois de cadaver córa pela primeira vez; e cerrando rijo os olhos contra a luz, e deixando-se recair pezadamente, de vós não pedirá mais do que um favor, o de lhe restituirdes a sua lagea.[2]