Emquanto assim vai o presente avesso do preterito pelo que toca á moral e á felicidade, fallo da verdadeira felicidade, d’aquella em que a moral entra como elemento, e não da fizica e corporal, da de fazenda e honras, como hoje se entende; vejamos a que ponto subirão com o movimento e progresso as nossas letras. Entrai as typografias, e dizei-me porque assim amotinão com o seu noturno e diurno lavor a vizinhança? perguntei-lhes porque assim gemem e se afadigão? em quaes livros nos estão preparando mananciaes de doutrina, ou de costumes, ou de suave, honesto e ja tão precizo desenfadamento? Dissereis que nossos laboriosos maiores as deixarão esfalfadas com os copiosos frutos de suas lucubrações: o mais com que se atrevem, são ridiculos farrapos de bestiaes torpezas. Seguem-se os mezes aos mezes e os annos aos annos, sem outras literarias novidades. Terra he que ja deo optimas searas e vinhas abundosas; agora descultivada e baldia, e á lei da natureza bruta, desata toda sua força e substancia em cardos, em ortigas, em venenos e serpentes. Quantos livros, e quantos bons livros, que nós outros nem conhecemos nem ja valemos a sopesar, saíão dos nossos prelos, nos tempos em que a probidade, e a mansidão, e a concordia tinhão seu preço. Um só reinado, e ainda bem chegado a nós, e de rei que por bom se não cita, com tanta copia de literarios monumentos nos deixou avergadas as bibliothecas, que dez centos de annos como o presente não produziráõ a decima parte. São os nossos typógrafos de hoje, se com aquelles os comparamos, como os nossos cutileiros de punhaes, comparados com os bons armeiros que forjavão espadas como as de nossos heroes de boa data, que só com sua pezada presença nos maravilhão, a nós, que por nossa verbosa sabedoria, acabaremos de desbaratar tantas e tão longes terras, como nos ellas ganharão esgremindo-se.

Tal vai pois o estado literario como o social; e nem menos podia ser, porque estas duas couzas, como alma e corpo, se pertencem inseparaveis: Mão de Deos que ao corpo politico quizesse restituir a saude, por ahi lhe fortaleceria não menos o espirito; Sopro de Deos que ao espirito restituisse a luz, por ahi lhe ordenaria e vigoraria todos os movimentos. Por tanto, conhecendo e confessando que nem facil he nem possivel torcer a carreira desenfreada que o nosso mundo leva não sei para onde, todavia para mim tenho, se na cabeça está isto, se no coração, não o direi, mas tenho para mim, que mui bem fará, e muito amado será dos rectos juizos quem nos fizer volver olhos de saudade para a vida que ja se viveo, o que ainda um ou outro, aqui ou acolá poderá inteira, ou quando mais não fôr, em partes, em amostras reviver. E pois será isto uma illusão minha? Se o geral da gente vai por entre dores para uma couza que se chama perfeição, não pode um individuo em particular deixar-se ficar atraz, despir essas suadas armas de milicia conquistadora, e recolher-se, honrado desertor, lá onde viva seguro com Deos, comsigo, com poucos vizinhos, logrando-se da natureza, e desfrutando em variados prazeres todos as estações; prezentes que Deos enviou para todos os homens, mas de que os das cidades só pela folhinha tem noticia! Por quão feliz se não devêra dar o escritor desambicioso, se aos puros sons de sua lira afinada nos bosques, lograsse, não como Anfião fundar e povoar cidades, não como Orfeo arrancar as feras dos arvoredos e domestica-las; mas arrancar d’entre feras humanas homens inda não corrutos, e assenta-los, para sempre feriados do reboliço dos grandes povos, no divino remanso de uma campestre solidão! De mui leves cousas e tenuissimos momentos pende ás vezes o destino de toda uma vida: assim como de um encontro fortuito resulta uma affeição amorosa, que logo produz um consorcio e um sisthema completo de existir, assim de uma palavra em uma conversa casual, da substancia de uma pagina lida em certa hora, do aspéto de um painel, podem nascer, e mil vezes terão nascido, determinações, vocação, e fados de individuos. E para vir a um exemplo recente e meu, aquelle bom livro das Prisões de Silvio Péllico (todo imbuido, releve-se-me a expressão, de uma christã e filosofica filosofia, que a maior parte das assim chamadas nem uma nem outra couza tem) aquelle bom livro, ja principiou e talvez acabará de me curar o animo: não lhe restituirá a muita harmonia com que o de Gessner mo temperára, porque a mocidade das illusões passa e não volta; mas deixar-mo-ha provavelmente assaz alto e forte, que ainda no meio das maiores tempestades repouze e abençoe tudo. E não he isto maravilha, que a alguns outros que o lerão ja eu ouvi iguaes, senão maiores encarecimentos de sua medicinal virtude.[3]

Este desvio, por onde me agora deixava ir, levar-me-hia longe, que assim he accomodado a meus gostos; mas porque he desvio o largo, e retomo o caminho que hia seguindo. A poesia amavel, a que nas mãos e seio nos vinha offerecendo ramalhetes, e frutos no regaço, e amores nos olhos, e nas fallas consolações, afastou-se d’entre nós, onde ainda a alguns poderia aproveitar, e assim como outras muitas boas artes e prendas, foi reclinar-se á espera na beira da torrente dos dias, d’onde não volverá, sem que primeiro se restaurem muitas optimas couzas e todas suas, que o mundo velho tinha produzido. Mas d’onde viráõ estas couzas? Do mesmo mundo velho? mal o creio, que o novo quebrou a ponte que os juntava, e rio de ufania vendo abismar-se fábrica que assim parecia eterna. Renasceráõ por tanto da propria natureza da terra, da indole da alma humana que ja uma vez as produzio, ou do sopro do ceo: renasceráõ tarde; renasceráõ quando nós ja não formos; renasceráõ, talvez diversas, mas renasceráõ. E quaes são estas couzas do mundo passado, cuja perda tanto dóe ás Musas e á Virtude? são as formosuras e magnificencias da religião, o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás lições da experiencia, ás obras dos antigos homens, a veneração ás cãs, o quasi culto ás mulheres, a benevolencia e sociabilidade, o aferro aos usos e modas patrias, o amor do estudo, que nós dissipámos com as leituras efemeras, e o amor do torrão natal, nobre fecundissimo sentimento, mas impossivel onde se vive sem muita brandura e sem firme certeza de permanecer. Tudo isto se perdeo para nós, e não sei que bens haja em seu lugar posto a Filosofia. A que verdadeiramente o he, ainda que esse nome se não dê, a que realmente faz homens livres e felizes, não he Furia que destrua tão venerandos objetos; ama-os, defende-os, reforma-os quando o tempo os viciou, concerta-os que se amparem mutuamente, pede-lhes frutos, e com seus frutos se fortalece.

Quando de espaço me dou a escavar estas verdades, nada me assombra a nossa crassa e desdenhosa ignorancia, mãi ou filha, e certamente socia da nossa immoralidade. Esta mal agoirada ignorancia e esta immoralidade cresceráõ; ja nossos filhos apenas saberáõ ler, e se o turbilhão que a roda leva não houver quem o suspenda, brutos e ferozes sairáõ os netos. Applicai todos os vossos sentidos ao coração da nossa Cidade: se a vida he movimento, ahi trabalha vida; se porem a vida ha-de ter um perfume, uma harmonia, ahi não ha senão morte, e aquelle movimento he de cadaver que fermenta para se dissolver. Poesia, verdadeira poesia ja n’este Reino, onde em todos os tempos pullullava espontanea, posto que raro amadurecesse, ja por consequencia acabou: quanto desde hoje se poetar nas enamoradas doçuras da vida aldeã, mais não será que recordações sem germen de futuro. D’entre a memoria e o espirito, não da experimental convicção do poeta, nasceráõ esses versos, como lagrimas de balsamo, que não de dentro da arvore, mas d’entre a casca e o libro vem raras gotejando, para cairem e se perderem no terreno bravio da solidão. Oh Liberdade, Liberdade! quão mal te comprehendem os que te separão do bello! quão mal te servem os que te malquistão com os homens de bem! como involuntariamente te levão á morte os que só te pedem como summa felicidade, o direito de nada respeitar, estradas de ferro, navios de vapor, um himno, e punhaes ou carceres contra quem quer que não beber ás suas mesas! Pobre Liberdade, não he este ainda o teu dia: não és tu idolo de selvagens, mas Divindade benefica de homens prudentes.

Eis-me outra vez com a Politica, e o meu voto quebrado. Ja vejo que a minha cura não está tão adeantada como o eu suppunha: não ha remedio, amanhã releremos Silvio Péllico, e por hoje voltemo-nos com toda a diligencia a rematar, como quer que seja, este escrito.

Sáe pois o presente livro por todos os modos extemporaneo, ja porque a estação nem he d’elles nem para elles, ja porque lhe fallecêrão dias para amadurecer e sasoar, e ja porque dos que lhe tomarem o sabor, uns o taxaráõ de temporão, outros de serodio, sendo que uma e outra couza he elle, e demais a mais pêco, segundo a planta de que se creou. Uma só lembrança me consola, e he, que assim mesmo ja deveo ser peor, quando da primeira vez appareceo, e mais lhe não faltárão gostadores; tanto he assim que nunca faltaráõ simpathias ao que de sua origem he bom, ainda quando desbotado e estragado pela impericia de quem o tratou. Melhor he hoje do que então era; não porque o eu tornasse á forja e á bigorna, ou o recorresse e lustrasse com esmerada lima, senão porque havendo hoje menos dados á lição dos livros, e em especial d’este genero, tambem ja não ha criticos, senão he para as acções da vida publica e domestica; por onde as obras escritas podem passar a seu salvo, sem que suas pobrezas e vergonhas sejão vistas e apupadas na praça. Desconsolada consolação he esta de se poder desafinar cantando, por se cantar entre surdos: mas esse mal, se o he, só a mim me toca, e para o descontar me sobra a lembrança, de que alguns caladamente me agradeceráõ o diverti-los do publico espetaculo. Para estes em boa hora sáia e sai o livrinho fallador de campos e amores: suave appareça como a violeta sozinha encontrada no passeio de inverno: suave e não estranhado como o raio de sol por cima de campo de batalha apoz uma noite de geada; nada aproveita elle aos cadaveres, mas alegra e consola como esperança aos que mal feridos jazião, e a quem o regelado lentor das trevas coalhava o sangue, desesperava as dores, tranzia os ossos, e os descoroçoava da providencia.

Ramalhete he de flores silvestres que a meus amigos deixo na hora do apartamento, que ao menos em quanto durar lhes recordará que os amei. Terra de Portugal e outr’ora de Portuguezes, terra namorada do mais formoso ceo, terra sombreada de larangeiras e murtas, acobertada de verde e bordada alcatifa, amorosamente abraçada do Oceano, talhada e regada de tão espelhados rios, terra de tanta poesia e de tanto amor, eu te deixo! E para que ja nunca onde quer que a fortuna me detenha, me cuides de ti esquecido, terra do meu Portugal lembre-te que o meu ultimo pensamento ao sair das tuas praias foi o da tua Primavera e o da minha Mocidade.

Lisboa: 1 de Dezembro 1836.