PROLOGO.

Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a Primavera, não ainda para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me. Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo, que deixado a si pareceria de fôrça.

He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos, se não injurias.

Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor, ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e ei-los aqui.

Primeiro: que andando a Primavera ja impressa e corrente por muitas mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor, retocada no que pertence ao literario.

Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher, os amores, amenidades e branduras da Primavera cáem muito a gente moça, ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os demais os não precavesse com honestas advertencias.

Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo de que o não parecerá.

—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias e velhacarias (diz elle no prologo da Catharina Howard) consiste em sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte: ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia, e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura, lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo, quer defunto.”