“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle homem na sua produção.”
“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos trinta e cinco. He o periodo para dever inventar Hamlet quem se chamar Shakespeare, o Cid quem tiver nome de Corneille, os Salteadores quem for Schiller.”
“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem O Rei Lear, Cinna, Wallenstein.”
“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta e cinco. He o periodo em que elles compoem Ricardo III, Polyeuctes, Guilherme Tell.”
“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem Wallenstein e Guilherme Tell, Corneille sem Cinna e Polyeuctes, e Shakespeare sem O Rei Lear e Ricardo III?”
“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta, senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal: são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono flores.”—
Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas.
Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A Primavera, escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar, seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem dó, são—as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e estiramento de períodos.
Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos; e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o desprezo de lingua e corréção; delito que per si basta para descontar muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom artífice, nem merecer desculpa de o não ser.
Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume, e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio, mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente, o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros, que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas;