A melhor fruta colhe-se mais tarde.
(F. R. Lobo.)
Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer, mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo, os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia, reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas, joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos.
O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu chamei desleixo de frase. He este muito menos grave que a impureza da lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia, ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a parede, e venha ao chão toda delida.
Tambem me queixei de estiramento de períodos. He defeito portuguez, peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu, melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido, por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a Noite do Castello e Ciumes do Bardo muito mais contraídos e apanhados em couzas e palavras, do que estes Poemettos e as Cartas de Echo: pois comtudo muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh! quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e natureza me levarem.
A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros do Porto e Tristezas de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita deleitação.—Inter utrumque: nem tanto apêrto como Almeno na chamada tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr na Noite do Castello, e Ciumes do Bardo, e não me arrependo se por ventura o consegui.
Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na Primavera: alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por não dessimilhar em demazia esta parte do retrato.
Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna, separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem, nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer, mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo, disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo, como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma só corrente.
Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes. Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra: fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração, mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá (e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos. Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente, póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor?
Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ, como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos para cá se tem feito d’ella, incredulus odi. Só consinto na fabula parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria.