Elmiro (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se Anfrizo, o qual em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode, toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me. Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso.
Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição o podéra antever, Josino, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja.
Aulizo[5] leo um longo poema intitulado A Primavera, que todo respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer, que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para, quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a confirma-lo.
Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo, Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que da Lapa sobe para a Quinta das Canas, que lhe fica sobranceira. Forão tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso, contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel, jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo, este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre, tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a interromper com applaudir e abraçar o poeta. Josino, que assim como o ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos, premiar a fronte do cantor.
Elmiro, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves ou traduções.
Salicio[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da Primavera de Thompson: Albano, uma tradução em lindas quadras do Idillio Primavera de Gessner: Francilio, uma tradução em proza de Utz, que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: Franzino uma versão da Primavera de Cramer: cerrando-se finalmente este rico banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo era, não foi dos menos vitoriados.
Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem: aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva, de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda não observado d’aquelle sítio. Chamando Aulizo pelos outros, lhes fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando, enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura verdadeiro? não o sei.
Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto: Elmiro fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados, parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita, enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não, mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para encantar a ultima hora da Festa da Primavera.