Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos. Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía por aquellas margens alem, começa de cantar A minha Lilia morreo; improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria, nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o murmurio baixinho da corrente.
Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido mão, se podessemos.
Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos, um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da Sociedade dos Amigos da Primavera.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio) hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:” approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado. Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos, alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião. Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar, tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora, sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio.
A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um murmurinho saudoso.
Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias, fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer.
Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e bemaventurados!
Lisboa: 2 de Janeiro de 1837.