¿Qual foi d’essas antigas gentes, fabuladoras por philosophia, a que não divinisou, e não ergueu sobre aras, para incensos e hymnos da posteridade, os inventores, introductores, ou aperfeiçoadores, das diversas Artes prestadias, e da Arte da Agricultura sobre todas? Cybéle, Osiris, Saturno, Céres, Triptólemo, Fauno, Pales, Baccho, Pomona, Vertumno, Aristeu, Flora, eis ahi uma parte d’esse Olympo terrestre, com que as Musas por mais de dois mil annos se inspiraram, e que, se já hoje não ressôam nos cantos, nem por isso ficaram menos sacros para os corações agradecidos.

«Demonios são os deuses da gentilidade»—exclamava, no seu enthusiasmo religioso, o Bispo de Híppona.—«Demonios são, cujos nomes nunca mais hão-de profanar estes meus labios.»

Enganais-vos, Agostinho, se abrangeis a esses bons deuses rusticos no vosso anáthema. Desendeusae-os embora; mas, em vez do ferrete de demonios, decretae-lhes foros de grandes Homens, e grandes Mulheres, já que de Anjos não pode ser.

Se procuramos, na rasão pura, o que por nenhum documento se rastreia, o por que os Romanos, apóz os Gregos, os Gregos apóz os Egypcios, e os Egypcios Deus sabe apóz quem, assim se comprouveram de povoar de numes e semi-numes indígetes os seus campos, facil se nos depára a chave do enigma. Obra foi, instinctiva e simultanea, de rusticos, e philosophos; do povo, e dos agentes da alta Politica dos Estados. O poder comprehendeu a utilidade de sanccionar culto que nobilitasse o lavrador, divinisando todos os objectos do seu trato, e a propria terra: os camponezes, por si mesmos, de motu proprio, coadjuvaram o poder n’esse mui real empenho seu, com darem largas á propria phantasia, faculdade sempre tendente para o poetico e maravilhoso.

E de feito, ¿que mais natural erro (se assim nos podemos exprimir), que abusão mais para desculpas e louvor, do que imaginar o homem, ao ver-se rodeado de successivos beneficios e presentes da Natureza, que andavam ahi velando sobre elle, por toda a parte, a todas as horas, entes beneficos, poderosos e invisiveis, a quem por isso cabiam amor e agradecimento? Por não abrangerem a Providencia na universalidade, decompunham-na em mil Providencias; e n’este sentido a idolatria era ainda um culto ao Supremo Desconhecido, «Ignoto Deo»; era o matiz brilhante e confuso, formado de vapores da terra entre ella e o Céo, como arreboes e aurora do Sol, que estava para nascer.


Além da gratidão, outra causa, se menos sublime, por ventura mais urgente, levaria os filhos das aldeias a abraçarem na alma, sem exame, aquellas crenças, logo que referidas na conversação dos velhos autorisados, ou evangelisadas pelos poetas, por esses engenhos de eleição, a quem sempre se attribuiram mysteriosas relações com outros mundos. Esta causa era, no meio da solidão, a tendencia para a sociabilidade.

O viver semi-eremitico do camponez, e as suas occupações, quasi todas manuaes, deixavam-lhe alma e coração livres, vazios, carecentes, avidos de alimento. Nos desenhos do Vaticano se vê, copia de uma pedra antiga, a imagem da Agricultura representada por uma Psyche, arrimada a um sacho, e meditabunda.

Então o pastor folgou de cuidar que uma deusa o acompanhava occulta, e o amava, defendendo-lhe o rebanho; que de dentro de cada arvore, ao perpassar, lhe sorria uma Nympha; que outra despejava da urna subterranea as aguas que o dessedentavam; que a aura refrigerativa das séstas era vivente, e lhe furtava beijos fugindo; que a sua flauta fôra inventada por Pan em hora de mágoas amorosas, e as suas cantigas eram repetidas com ternura pela namorada de Narciso.