O semeador, lançando o grão á terra, commettia a sua subsistencia ao coração maternal de uma beldade; o pomareiro encommendava a outra, ainda mais beldade, encher-lhe os açafates e cestos para o outono; e o vinhateiro via um menino, tão gentil como o proprio Amor, e um velho tão folgasão como esse menino, andarem-lhe brincando por entre as cepas para florescerem. O dia, derramava-o dos céos o deus da musica e dos versos. Á scismadora melancolia das noites presidia, lá do carro da lua, uma virgem candida, que de manhan andára caçando pelos bosques, e de quem havia segredos... para se contarem ao ouvido das raparigas.
Assim se era amado, porque se amava; e se amava, porque se era amado. Assim se ganhava animo para supportar a solidão; ou, por melhor dizer, assim a solidão se transformava em sociedade; sociedade tão numerosa, tão garrida, tão illustre, tão sensitiva, tão amavel, tão munífica, sobre tudo, qual nunca jámais a poderiam ter os saráus das maiores Côrtes, e dos maiores Reis.
Sob o astro esplendido do Christianismo tudo isso passou, como perante o sol do estio desapparecem as multicores florinhas, que borboleteavam por valles e oiteiros. O campo desenfeitiçado se consagrou por bellezas mais severas; mas a solidão reappareceu em grande parte, e quiçá mais profunda e melancolica, em derredor do camponez. É porque já se aprendêra do Historiador da Creação, que a fertilidade só nascia do trabalho, e que o trabalho era castigo da desobediencia; que a terra não era patria, se não degredo, e a vida não estado, se não caminho por valle de muitas lagrimas. Os frutos já não foram dádivas de nymphas, sim esmolas, que a troco de suor e orações se lançavam lá de cima aos necessitados, para elles as repartirem com os indigentes.
As novas festas campestres, as Rogações de Maio, a procissão das Alleluias, não compensavam, para os sentidos, as sacras profanidades de outro tempo.
Acudiram Musas do Cedron e do Jordão, successoras, e não herdeiras, d’aquellas nove da Castália e Aganippe, e forcejaram por enthronisar no campo das antigas divindades esvaecidas novos Genios mais formosos, ainda que menos sensuaes; verdadeiros quanto á existencia, e só quanto aos attributos fabulosos. Ás Dryades, Oréades, e Faunos, succederam na tutella das arvores, dos oiteiros, e das planicies, Anjos invocados do Empyrio pelas harpas germanicas do cantor delicioso de Abel, do cantor sublime do Messias. Mas esses Espiritos custodios das plantas e das aguas, das flores e das estrellas, em quem a imaginação creu, talvez, em quanto ressoavam os accentos d’aquellas harpas, volveram aos Ceos com Gessner e Klopstock, como os numes haviam volvido ao nada; e a solidão campestre recomeçou; ou proseguiu.
O ideal da vida agricola achava-se pois abolido, e para todo sempre. A obra das Musas do Líbano caducára, como a obra das filhas do Parnaso. A arvore não era mais que um lenho verde; a fonte, agua; a terra, terra.
Acode a Sciencia, para repoetisar tudo.
A Sciencia da Natureza é nos tempos modernos um gigante, animado de mil espiritos, armado de mil braços, guarnecido de mil azas, dotado de mil ouvidos e mil olhos; engolfa-se, como aguia, por ceos e ceos; colhe no vôo os cometas e os planetas, e lhes toma o pezo e a medida; distingue na atmosphera imperceptiveis e subtilissimos fluidos, e os senhoreia como a outros tantos Genios poderosos, constrangendo-os a explicarem-se, e a servil-a; estende a vista senhoril pela superficie do orbe, e impõe, como o primeiro homem, nome proprio a cada vivente sensitivo, a cada planta, a cada composto, a cada elemento da materia bruta e inerte, desde a colossal baleia, até o microscopico infusorio, desde o giganteo baobab, até o pulverulento lichen, desde os alterosos Andes, até as parcellas imponderaveis do simples mineral. Entre tantos milhões de individuos, estabelece os reinos, determina as classes, subdivide e forma ordens, reconhece os generos, caracterisa as especies, e descobre as mutuas relações de nexo ou afastamento. Funda preciosos inventarios de tantas riquezas, os methodos naturaes, e os systemas artificiaes. Abysma-se nas profundezas da terra, e reapparece com os documentos da historia do Mundo; medita-os, e prophetisa o que lá vai, já nos incommensuraveis seis dias do Génesis, já nas eras subsequentes. Interroga a vida em todos os seus mysterios: na geração, na reproducção, na conservação, no crescimento, nas metamorphoses; aqui, lhe recebe a confissão de um segredo; além, lhe arranca outro; conjectura todos; e muitos, por ventura lh’os adivinha.