Ajudada das artes, filhas suas, nutridas aos seus peitos, entretece industriosamente todos esses innumeraveis fios de luz, que de cada ponto da materia lhe ressurtiram, e por suas combinações inesperadas faz apparecer, de momento para momento, novos recursos para as mesmas artes, novas forças e vantagens para o homem.

O campo, sondado pela Sciencia em cada camada do seu terreno, em cada elemento dos seus adubíos, em cada gotta do seu orvalho, em cada molécula dos seus gazes, em cada póro das suas plantas e animaes, em cada tácita relação de tudo seu com os meteóros, com a electricidade, com o frio e calor, com a luz e as trevas, com cada um dos ventos, com cada uma das quadras, com cada um dos mezes, com cada um dos dias, e horas do dia, o campo, repetimos, encerra pois mais poesia, poesia mais bella, mais fecunda, mais vivaz, mais duradoira, que as antigas.

A arvore do pagão fôra nympha; e a do simples christão, simples meza de caridade. A arvore para o sabio é um microcosmo de maravilhas; é um pregão, não já mudo, de Sabedoria, de Poder, de Bondade sem limites.


¡Felizes nós, se, interpretando uma ou outra harmonia da Natureza, podermos confirmar o camponez na sua religiosidade hereditaria!

¡Felizes, não menos, se nos ricos senhores crearmos, ou accrescentarmos, o amor dos seus campos, e o salutar affecto aos pobresinhos, que com o seu suor lh’os fertilisam! ¡se, tornando-lhes aprasivel o rusticar, e descobrindo-lhes com Zimmermann os thesoiros da solidão, contribuirmos para que alguns vão ser divindades veneradas no seu torrão, e ensinar com o seu trato polidez aos filhos das aldeias retemperando-se entre elles, e readquirindo algum pouco d’aquella innocencia velha foragida das cidades! Que vendo nos seus bosques e seáras alguma coisa mais que lenha e farinha, sintam que a Agricultura é o parentesco, a amisade, a intimidade, o trato de mutuos beneficios, entre o homem e a Terra sua mãe. Que repitam com Bentham: «A classe dos que trabalham, se é a derradeira no vocabulario dos soberbos, é no vocabulario da san Politica a primeira». Que muita vez, nos seus passeios meditativos, exclamem enternecidos, como a Baroneza de Staël: ¡«Pobre gente! ¡meio silvestres, meio civilisados! mas os que d’entre elles são virtusos, ¡oh! esses teem um genero de innocencia e bondade, que lá nos mundanos se não acha.» Ou, reclinados ao sol posto no poial da sua granja, revolvam calados aquellas palavras, com que a Biblia, na sua maravilhosa simplicidade, nos encarece o viver facil do Povo eleito no reinado de Salomão: «Comer, beber, e folgar, sem nenhuns medos, cada um á sombra do seu parreiral e da sua figueira.»

¡Oh! e as mãos do que tudo isto chegar a dizer, ¡que venturas não dispartirão tacitamente pelas agradecidas choças de tantos, que, em meio de montes de riquezas, não tinham muitas vezes um pão negro para os seus meninos!

«Quem faz amar os campos—escrevia Delille—faz amar a virtude.»

¡Oh ricos, ricos! ¡Quão pouco vos custára o ser ditosos, creando nos outros alegrias para vós mesmos! ¡Quão facil vos fôra acabar com o antigo pleito, que pende entre a penuria e a opulencia! ¡Quão facil, e quão glorioso, o fazerdes (e não á vossa custa, se não até com proveito vosso) com que os filhos, como vós, de uma terra fertil não fugissem d’ella, para se irem comer pão de escravos, e estalar de saudades em sertões longinquos!

Se amais o chão onde nascestes, creae e enraizae n’elle verdadeiros lavradores.