Lavradores verdadeiros não são só os cidadãos mais productivos, mas tambem os mais pacificos e patrioticos.

Janeiro de 1848

II
Sociedades de Agricultura

SUMMARIO

As associações agricolas hão-de diminuir as aversões publicas, e restituir o amor do trabalho.—A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense mostra o que taes sociedades valem.—Vantagens que já tem dado.—O seu exemplo ha-de ser imitado, mesmo em Portugal.—A convicção da necessidade de olhar pela Agricultura é já sentida geralmente.—As regenerações politicas só serão verdadeiras tendo por base a Agricultura.—Todas as revoluções teem origem na bolsa.—Tributos devem-se exigir, proporcionando-se meios de os pagar.—Os poisios deviam repartir-se pelos soldados.—Como seria um bom Governo.—Aqui não entra «Politica» segundo hoje a entendem.—Declaração de qual é a do autor.—Como as Côrtes e o Governo podem felicitar sem custo a Nação.—Se elles o não fizerem, façam-n-o os particulares, associando se.

Por um interessante periodico do Funchal, O Madeirense, vemos com prazer, que tambem ali se torna a olhar com amor para a terra, a grande Mãe, como philosophicamente lhe chamavam os Antigos.

A terra é o campo neutro, no qual, ainda hoje, se podem congregar os animos, que as contendas sociaes dissociaram e lançaram a monte. Não é senão no seio da Natureza immutavel, universal, inexhaurivel, que os homens podem encontrar novamente a convivencia de ideias, e a fraternidade, a que os leva o seu instincto, tanto como a sua razão. Se o trabalho é a condição indispensavel de todos os bens, se a união é a indispensavel condição de todo o trabalho de veras fecundo, ¿quem não vê que as Associações agricolas, além do grande beneficio de tornarem a enfeixar um pouco a familia humana, hão de promover o trabalho, Anjo custodio de saude e bons costumes? O que as Associações agricolas estão dando de si nos povos representantes e coripheus da civilisação, é historia já tão publica e corrente, que ainda aquelles que a não estudam a sabem pouco mais ou menos. Mas, preterindo, como logares communs, a França e a Inglaterra, figuras obrigadas em qualquer pagina dos nossos contemporaneos, como aquell’ outras de Grecia e Roma em cada escrito dos nossos paes, préguemos á nossa gente com o exemplo, muito mais persuasivo, dos «santos de casa.»


A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense é a demonstração viva do que taes corpos valem, e podem, para o aperfeiçoamento dos lavradores.

Nascida de hontem, se pode dizer, sem amparo algum externo, sem uma dotação larga, para converter em factos a decima parte dos seus bons desejos, constantemente a braços com as difficuldades dos tempos, ainda não apreciada nem comprehendida na propria terra, e com mais de metade das suas forças intrinzecas desaproveitadas, com um viver intermittente, reduzida a hibernar por quasi toda a bella estação, e no inverno mesmo só incompletamente concorrida de seus membros e sem ouvintes para a animarem recolhendo-lhe o fruto das discussões; n’uma palavra: não havendo tido, por si até agora mais que tres ou quatro vontades perseverantes, mas inquebrantaveis, mas inflexiveis, mas cheias de fé e amor, esta Sociedade contém já nos seus fastos algumas paginas, que a gratidão da Historia ha-de doirar, e os futuros lavradores beijar com enternecimento.