O rusticissimo horror das innovações agrarias, esse ridiculo espantalho millanario de todas as ideias uteis, não se destruiu, porque não pode destruir-se; mas vai recuando para dentro dos limites de uma prudente e cautelosa espectativa; isto é: a curiosidade moderada, que não dá passo sem primeiro palpar o terreno, mas que, apenas o sente solido, adianta e assenta o pé para não retroceder, occupa já o logar do empyrismo intolerante e indomesticavel.
Não se instruiu ainda o camponez; a tarefa de seculos não cabe em dias; mas fez-se-lhe entrever a sua ignorancia; é uma grande passada no caminho do Progresso. Fez-se-lhe conjecturar, por factos sensiveis, que havia, fora da sombra do seu campanario, e mesmo dentro nas cidades, amigos seus e da terra, habilitados pelo estudo para mestres e guias; que os livros não eram todos sonhos vãos de charlatães, e que de muitos d’elles sabiam raios, luminosos como os do sol, que fertilisavam a terra largamente; que não havia sacrilegio em trocar a enxada de Adão pelo instrumento só de hontem inventado, mas que multiplica as forças, as horas, os frutos, as moedas, os ocios innocentes, e os praseres.
Insinuou-se a pouco e pouco, e sem rumor, nas praticas do serão da Aldeia:
primeiro, a crença de que o Mundo era mais amplo que os confins da parochia ou do municipio, e muita planta boa, e muito animal prestadio opulentavam outros paizes, que, se viessem ao municipio e á parochia, lhes accrescentariam os haveres;
que se podia produzir mais e melhor em frutos e materias primas, para industrias que ao longe se enxergavam;
e que o pretender aperfeiçoar as raças brutas, as manadas, os rebanhos, e os animaes domesticos, não era absurdo nem impiedade, pois que a tudo isso se chegava sem mais feitiço que o entendimento que Deus nos deu.
Não queremos affirmar que o poisío secular, sêcco e maninho, dos espiritos da população rustica se ache já desmoitado. Affirmâmos porém, e poderia provar-se, que da fundação da Sociedade promotora data um progresso notavel na Agricultura d’este paiz; que ha hoje ahi em exercicio muito instrumento moderno de inquestionavel prestimo; que alguma raça de animaes caminha para o aperfeiçoamento; que as plantas preciosas estrangeiras são desejadas e bemvindas; que se vai pegando a curiosidade do experimentar. N’uma palavra: um observador attento e sagaz sente nas ideias rusticas o que quer que seja de vivaz, de vegetativo, de medrançoso; semelhante ao que se percebe nas hortas, de verão, pela calada da noite, quando ao luar se está suavemente devaneando: um rumor vago e tenue pela folhagem; um cheiro suave de vitalidade, que é circular de seiva, encorpar de hásteas, desabrolhar de gomos, explicar de folhas, nascer de botões, abrir de flores, enchar e amadurecer de frutos; são os fluidos impalpaveis do dia que passou, que por ali se estão ás escuras corporificando para abundancia; d’aquelle ruído sem nome, e quasi imperceptivel, é que lá para o diante se hão-de acogular as eiras, encher os celleiros e os lagares, assoberbar-se os carros, os portos, e os navios, nutrir-se os homens e os animaes, as aldeias e as cidades.
Deixae continuar em sua acção a causa impulsiva d’este movimento, que já se opera nos espiritos camponezes, e vereis as innovações cada vez menos repugnadas, a sciencia pratica avantajada de anno para anno, e com ella vir raiando um pouco tambem da sciencia especulativa, unica fonte dos progressos ulteriores e indefinidos.
Felizmente, este exemplo grande e nobre que a Sociedade Michaelense está dando a todos os dominios Portuguezes, e á metrópole mesma, é grão lançado em terreno, que nos parece achar-se já devida e sufficientemente preparado.