De toda a parte onde ha Portuguezes, isto é: de toda a parte onde sobre um solo fertil negreja a penuria, saem gritos clamando pela Agricultura ausente, como pelo ultimo e unico Messias terrestre; e esses clamores, quando assim se tornam geraes, são sempre prophecia.

A convicção chegou a todos os animos: a uns pelo raciocinio, aos outros pelo mero instincto; mas em todos está; em quasi todos clama; e já em muitos se agita insoffrida, para se converter em obras.

Se os commodos da vida, isto é os deleites do corpo, os do coração, e os do espirito, são o alvo a que tiram de longe, e de encontrados pontos, todas as opiniões, todos os systemas, todas as parcialidades, a Agricultura para Portugal deve (e não pode deixar de ser) havida pela Politica suprema, pela Politica das Politicas; pois quando, renascida e adulta, a nossa Agricultura nos houver feito laboriosos, abastados, modestos, bons, unidos, e irmãos, então, e só então, é que as theorias de liberdade deixarão de fluctuar e transformar-se ao sôpro das palavras, como as nuvens inconsistentes ao capricho dos ventos.

As instituições sociaes querem todas uma base; e não ha para ellas alicerce, como é a terra a desentranhar-se em riqueza; tanto assim, que o proprio regimen absoluto, e ainda o despótico, em quanto não faltam ao Povo com pão e um pouco de recreio, permanecem, não combatidos, nem quasi murmurados; ao mesmo passo que as mais philosophicas e altisonantes constituições em terra faminta, isto é em terra pelos homens desaproveitada, são victima, muitas vezes innocente, mas sempre victima, dos irreconciliaveis odios da indigencia.


Não se ha mistér ser profundo sabedor na historia das revoluções, para reconhecer que todas ellas, proxima ou remotamente, teem na bolsa a sua origem; assim como é evidente, que em quasi toda a parte é a terra trabalhada quem enche a bolsa; ou, pelo menos, que é só ella quem, enchendo-a, pode prometter com affoiteza conserval-a cheia.

Um dos mais deploraveis erros, se não o mais deploravel, é procurar acudir aos males produzidos pela miseria, extorquindo aos proprios miseraveis com uma das mãos o que depois, bem ou mal, em todo ou em parte, se derrama sobre elles. O Thesoiro publico só é abastado, ou, mais verdadeiramente, só ha Thesoiro publico, onde se não é obrigado a arrecadar para elle sangue, lagrimas, e maldições.

Os tributos são uma necessidade; mas para os Governos justos e previdentes não no é menor subministrar aos governados meios de producção, com que satisfaçam aos tributos.

Facilitae-me encher a minha tulha, e pedi-me embora metade d’ella para remir o desamparo dos meus visinhos. Mas se pela minha porta aberta não vedes, em toda a minha poisada terrea, nem lume, nem pão, nem assento, nem mais vestido que os andrajos que andam no corpo, não me vendais para o tributo o bercinho nú do filho, e a enxerga desconchegada da mãe; não m’os vendais que o não quer Deus; não m’os vendais, não m’os vendais, que por um tostão ou dois os havereis matado a elles e a mim, e á vossa consciencia tambem; e todos estes mortos se alevantarão á hora prescrita, para matarem a vossa causa.

Se os haveres são o sangue do corpo social, e se o corpo social jaz por debilidade, ¿pensaria alguem cural-o abrindo-lhe as veias e as artérias?