Em quanto houver terras devoluto, a dar cardos e urzes em logar de trigo e azeite; em quanto houver braços com ociosas armas ás costas, ou encruzados sobre o peito descarnado; em quanto não repartirdes esses braços por essas terras, e essas terras por esses braços, com um alvião, um punhado de sementes, dois ou tres cruzados para uma choça de colmo, um cathecismosinho de Agricultura, e uma boa isenção de direitos até que a abençoada plantação se desate toda em frutos; em quanto fordes tolerando que o vicio, o ruim exemplo, a indiligencia, e a ignorancia, lancem quotidianamente na voragem sempre crescente da prostituição milhares de moças, nascidas com entendimento e coração para mães de familias, e a maior parte das quaes o haveriam ido ser, se o seu hediondo celibato não fôra effeito necessario do celibato forçado de tantos homens; em quanto, pelo concurso de tamanhos desconcertos, deixardes que permaneçam estereis, despresadas, e despresiveis, as duas mais formosas e mais santamente productivas coisas do mundo, a terra, e o seio da mulher; sereis mendigos a governar mendigos, sereis loucos a vexar attribulados.

Podereis chamar-vos Governo, segundo o Direito constituido, e pelas trombetas de uma parcialidade, da vossa; mas pela Natureza, mas pela philosophia, mas pelo vosso proprio senso intimo... nunca merecereis tal qualificação.


Damos por superfluo declarar que, se algum nescio, ou maligno, vir d’isso a que ahi chamam Politica nas poucas linhas que deixamos escritas, não foi absolutamente nossa intenção, nem o é, nem o será nunca, descer das alturas serenas e claras do raciocinio até essas escuras e lodacentas encruzilhadas.

Não processâmos nenhum homem, nenhum bando, nenhum systema; ou processâmol-os todos.

Hoje (comprazemo-nos de o repetir) não commungâmos senão á Meza catholica da Philosophia. Todas as variações protestantes da egreja politica liberal nos são desconhecidas. Lançâmos ao ar e ao vento as palavras de bom conselho, com hombridade e sem odio, como todos devem; é a nossa consciencia a respirar alto.

A parcialidade que fizer obra do que nós só fazemos discurso, será essa a que nós bemdiremos. Os primeiros estadistas, que arvorarem por estandarte na ponta de sua lança sem ferro a relha da charrua e o sacco da semente, serão os que nos movam, sem que nol o peçam, a irmos á urna; e á fé que não votaremos senão por elles, porque esses nos haverão feito acreditar na edade de oiro. A edade de oiro não está no passado, como a sonharam os poetas, mas no porvir, e bem proxima se o quizermos. Não ha de baixar do Ceo com deuses, mas ha-de rebentar da terra com frutos e creanças, quando os homens se encurvarem para a invocar.


Segundo os axiomas que deixamos tocados, grandes, imperiosos, e urgentissimos são os deveres, que ás autoridades executivas e legislativas incumbem, de remover obstaculos, e proporcionar meios para que a Agricultura nacional se levante e cresça, com aquella espantosa rapidez, com aquelle vigor prodigioso, que todas as coisas nobres assumiram sempre em nossa terra, quando de veras as quizemos.

Legisladores e governantes, dizei «Faça-se»; de todos os cantos da Monarchia se repetirá em milhões de eccos: «Faça-se». E far-se-ha. E o Povo Portuguez reapparecerá aos olhos do mundo tão grande e magnifico nos seus trajos de lavrador, e coroado de oliveira, como outr’ora soldado e conquistador, coroado de loiros, e cicatrizes; mas com uma vantagem summa na sua nova transformação: que as conquistas e pelejas o matavam afogado em oiro e sangue; em quanto a Agricultura o haverá remoçado como o Esão da fabula, e opulentado do oiro vegetal, unico oiro que sustenta e se semeia para mais oiro.