¿Não virá porém prematuro o alvitre? ¿Não estaremos cantando alvoradas a quem não está para acordar? ¡Ainda mal, que bem pode ser isso verdade! N’esse caso, desde já acceitâmos, antes que nol-o imponham, o epitheto de loucos; costumado e universal castigo de toda a vontade generosa, que primeiro mette o pé á vereda que algum dia tem de ser estrada.
Oxalá, todavia, que alguns loucos sublimes, convencidos, como nós, de que já não temos salvação possivel senão pela Agricultura, e de que Portugal, como o Antheu da fabula, derrubado pelo Hercules do luxo, só da terra pode reassumir as perdidas forças, appareçam intrépidos a apostolar Agricultura; uns na Imprensa, que é a grande charrua de desbravar entendimentos; outros na tribuna, que é onde a rasão publica se concentra em Lei; outros no Governo, que é onde até sem Lei, não só ha, se não que sobram, forças para o bem; outros finalmente, e sobretudo, entre os cabeças administrativos, e os cabeças espirituaes do Povo.
Para esses irmãos nossos em caridade e em patriotismo, é que vamos ainda escrever algumas poucas linhas das nossas solitarias utopias.
Semeie o homem, que Deus a seu tempo fará nascer.
N’este momento lemos com a mais viva satisfação, em carta que nos chega de Lisboa, o seguinte:
«Para melhorar a nossa Agricultura organisou-se agora aqui uma Sociedade, ou, por melhor dizer, Companhia, com o titulo de Liga promotora dos Interesses materiaes do Paiz, presidida pelo sr. Ayres de Sá Nogueira. O fim é agricola. Já celebraram duas sessões no salão grande do theatro de D. Maria II. Na ultima leu o Presidente um projecto, que reputava ancora de salvação, segundo o qual se deve crear um Banco rural em Lisboa, com o fundo de vinte milhões, em dinheiro, inscripções, apólices, tendo este Banco filiaes em todas as terras do Reino.»
¡Bemvindo seja, e vingue, e prospére abençoado nas terras de Portugal, este tutelar pensamento! Filho é elle, talvez, do que já em 13 de Fevereiro d’este anno se propunha, se acceitava, e se applaudia na Sociedade promotora da Agricultura Michaelense, e que os nossos leitores se recordarão haver lido a paginas 36 e 37 do jornal d’aquella Sociedade (Assignalamos esta circumstancia, porque, se o alvitre foi de gloria para San-Miguel, a adopção do alvitre bom não honra menos a Portugal)[2]. Sim; é esta uma providencia, que alegra, e retinge de esperanças bem verdes o solo sobre que se alevanta; é como nuvem chuvosa, que se estende sobre o terreno requeimado e empobrecido do estio; todos os rostos se riem á sua aproximação; os visinhos dão aos visinhos os parabens; todos saem alvoroçados a receber-lhe as primeiras aguas; os rebanhos, mesmo a festejam; as aves a cantam, sacudindo as azas humidas; pela superficie da vegetação corre um frémito voluptuoso.
Sim; grande e grandioso é o beneficio; ¿mas será elle bastante? não: as necessidades agrarias são variadas, numerosas, digamos infinitas. Mal se acode a uma, se a todas se não acode; pelo menos a muitissimas e ás principaes.