Suppomos, imaginamos já, o oiro e a prata a choverem á porta do lavrador na vespera da sementeira, da plantação, do arroteamento; ¿e que digno uso fará o triste rustico d’esses meios de acção, d’essas forças que se lhe liberalisam, d’essa colheita, que se lhe antecipou ao trabalhar, se lhe minguam luzes de sciencia alheia, ou sua, que o dirijam? ¿vontade intima, que lhe dê impulso? ¿certeza, ou quasi certeza, de consumo ao que vai produzir? ¿Que fará emfim, se, ainda tendo tudo isto, Leis viciosas o avexarem no seu officio, lhe arrancarem os operarios e os filhos para a milicia, lhe multarem com tributos o suor, como se devêra multar a ociosidade, o luxo, e os vicios, e lhe exposerem a herdade a ser talada pela guerra civil, os bois do seu arado comidos, as ovelhas do seu adubío espingardeadas, o carro e as arvores do seu pomar convertidos em fogueiras para aquecer a tropa rôta, ou a guerrilha descalça e bandoleira que transita? N’uma palavra: ¿que aproveitará que o predio se lhe desentranhe em frutos, como uma cornucopia, se a estrada para o mercado não existe, se o rio convisinho, que deve transpôr, não tem ponte, se o que podia carrear-lhe os moios se obstruiu, e apodrece dormente pelas margens usurpadas?

Eis aqui chagas velhas, asquerosas, e envenenadas, que a nossa Agricultura padece em todo o corpo, e para cujo curativo não é sufficiente balsamo um Banco rural.

Se de veras queremos ser salvos, não ha remedio senão soccorrermo-nos a uma reforma e organisação franca, sincera, absoluta, cabal, completissima: Côrtes mais lavradoras que financeiras; mais lavradoras que politicas; ou antes muito politicas por muito lavradoras; Leis agrarias, e mais Leis agrarias; e para todas as anti-agrarias suppressão e execração; um Ministerio da Agricultura fecundo, dadivoso, vigilante, e incançavel como o seu objecto; e, sobretudo, associação universal dos homens bons, dos homens intelligentes, dos homens de sciencia, dos homens de fortuna, dos homens de acção, dos homens de valimento, dos homens patriotas, dos homens de bem, dos homens homens, finalmente.

Repitâmol o, ainda a risco de enfadar, e repitâmol-o, porque é Evangelho: não ha sacrificio, que, por grande, se deva recusar á terra, pois é ella só que possue o segredo, que os estadistas procuram cegamente nos livros e nos calculos. Não é no perseguir uns, no divinisar outros, e no trocar todos com perpetuo e devastador fluxo e refluxo; é no associal-os entre si, e reconcilial-os com a mãe-Terra, que está a condição facillima de todas as venturas.


As Sociedades promotoras, quaes as havemos bosquejado, seriam para o lado dos operarios rusticos pharol, bussola, thesoiro, conselho, estimulo, protecção, refugio, canal para a entrada dos gados, das sementes, dos instrumentos novos, e para a sahida e venda dos productos. Para a parte dos que governam seriam não menos pharol, não menos bussola, não menos thesoiro, não menos conselho, não menos estimulo, não menos protecção, não menos refugio, não menos segurança e felicidade; pois que a felicidade e segurança dos governantes, só da felicidade e segurança dos governados se compõe, e só d’ellas se pode compôr.

Assumpto era este para interminaveis commentarios; mas estreiteza de papel, mas estreiteza ainda peor de vontade em quem nos ha-de ler (ou não ler) nos acovarda.

Dizer tudo, não o podemos; tudo calar não nol-o soffre o coração.

Vamos cerrar em epilogo mais algumas lembranças, que ahi fiquem já, de proposta á consideração das futuras e das presentes Sociedades agricolas, do futuro Ministerio da Agricultura, dos Deputados, e da Imprensa.