I—Se a associação é a mãe dos prodigios; se os que se associam dão, por voluntario tributo, tempo, trabalho, despezas, a um interesse publico; ¿não é repugnante contradicção que o Governo, representante natural de todos os publicos interesses, lhes carregue ainda os onus, e, a troco de uma illiberalissima sancção de seus estatutos, de uma inintelligivel licença para existirem, lhes exija nas secretarias uma avultada somma pecuniaria?
¿Não deveriam antes as associações agricolas, as industriaes, as artisticas, as litterarias, e ainda as de mera e honesta recreação, ser tão livres como são em nossas casas os convites, os bailes e os festejos?
E ainda mais: ¿as uteis não mereceriam, em vez d’esta compressão á nascença, premios e louvores segundo a sua importancia?
II—¿A introducção de tudo quanto pode contribuir para o aperfeiçoamento da Agricultura não deveria ser, da mesma sorte, não só isenta de direito, senão ainda premiada?
III—¿Não seria sobre modo util legislar mais premios, para os que no trato da Agricultura se extremassem? ¿Quem universalisou a cultura da batata, senão o premio? ¿Não deveria semelhantemente havel-os para todos os primeiros introductores de novidades agrarias, para os autores, mesmo para os traductores, de escriptos agronomicos de uso pratico, verbi-gratia imprimirem-se-lhes gratuitamente esses escritos pela Typographia Nacional?
IV—¿Não é já tempo para a creação de quintas exemplares?
V—¿Não seria ajuizadissima providencia enviar mancebos, previamente habilitados, matricular-se nas escolas agrarias praticas das nações adiantadas, os quaes, depois de viajadas a França, a Allemanha, a Inglaterra, a Italia, a Suissa, se recolhessem mestres e regeneradores para entre os seus conterraneos?
VI—Os lavradores, os camponezes em geral, dir-se-hia que, semelhantes ás plantas, lançam não sei que raizes no torrão nativo. A ideia de se desviarem, mesmo para perto e para pouco tempo, lhes repugna; o seu viver tem as demarcações da sua fazenda. E depois, fallecer-lhes-hiam os haveres, para se irem tão longe á escola rural; os haveres, e o animo tambem, que entretanto ahi lhes ficava a herdade sem tutella, a casa sem escora, os paes alquebrados dos annos, sem bordão nem companhia.
¿Não fôra logo uma providencia tão santa como philosophica e fecunda, fazer d’esses regressados viajantes—agrónomos, professores ambulantes de Agricultura, que se fossem de Districto em Districto, e de Provincia em Provincia, doutrinando como Apóstolos? ¿assentando hoje aqui a sua escola, á sombra da arvore rustica no alto do oiteiro, e tomando para thema da prégação os predios circumjacentes; os mais bem cultivados, assim como os mais errados e perdidos? ¿d’aqui a um mez, mais longe, em cima das médas da eira, por uma noite de luar, adubando os preceitos, no meio dos ouvintes apinhados, com episodios da sua Odyssêa por terras alheias, com apraziveis digressões, sempre bem vindas, sobre a Sabedoria e Liberalidade Divina?
Como os Apóstolos antigos, estes evangelisadores do trabalho, em toda a parte assignalariam com milagres a sua passagem; as gandaras se transformariam em seáras debaixo de seus pés, em pomares e mattas por cima de suas cabeças; os baldios, em pastagens; os gados famintos, em lustrosos rebanhos e manadas; a arca mal cheia, em celleiros atulhados; a borôa sem conduto, em meza saborosa; a choça lodacenta, em casinha de sobrado e vidraças, com dois ou tres livros para o serão, um leito alvo e fôfo para a noite, e um oratorio, sempre enfeitado de flores frescas, para as acções de graças quotidianas.