Se ella fosse humana, se ella fosse sobretudo ré da millionesima parte dos crimes e horrores, que os seus adversarios (¡varões probos e honestissimos!) lhe assacam, ¿como haveria resistido a dezoito seculos? ¿a trezentas revoluções na politica, e outras tantas nas ideias? ¿aos vaivens das seitas, e das chamadas philosophias? ¿ás minas surdas do indifferentismo? ¿ao fanatismo sanguinario de alguns de seus membros, e á perfidia e á deserção de tantos outros?

Neros e Sardanapálos appareceram mais de uma vez na cadeira de S. Pedro. Mãos em vão sagradas cavaram masmorras e accenderam fogueiras; seguraram os pulsos a povos, para que tirannos os agrilhoassem; afiaram os punhaes e as espadas para guerras fratricidas; e a Sciencia, filha do Ceo como a luz, em nome do Ceo a perseguiram.

E entretanto, atravez d’esses arroios de sangue e lagrimas, e d’esses montes de cinzas e ruinas, o esquadrão candido dos Levitas continuava a sua peregrinação para o Ceo, abençoando, e abençoado; penitenciando se em segredo pelos maleficios de que era innocente; vertendo lagrimas e chrysma sobre as feridas de seus irmãos; semeando na terra desconsolada o amor e as esperanças.

Ao notarem ignorancia e corrupção no Clero, os semi-philosophos imprevidentes votam, sem hesitar, a sua abolição. Os sabios, isto é os prudentes e amigos da humanidade, calculam caladamente: ¡o que se tornaria o rebanho, privado de pastores! ¡os costumes, sem doutrina nem censura! ¡as penas sem conforto! as prosperidades e soberbas, sem contrapezo! ¡os seis dias da terra, sem um dia do Ceo! Depois, comparam essa corrupção e essa ignorancia (desgraçadamente muito certas) com a corrupção e ignorancia ainda maiores de quasi todos os inimigos da Egreja; e, convencendo-se de que o mal não é sem cura, propõem, em vez de exterminio, que é sempre o primeiro recurso dos barbaros: contra aquella ignorancia, luz de sciencia; contra aquella dissolução, outra vez luz, disciplina, e vigilancia.

Não está o remedio em fechar a residencia parochial, depois de expulso d’ella o Cura indigno, deixando muda e ás escuras a casa da oração. Não está em despejar os paços episcopaes, para morada e pagode de especuladores enriquecidos, e as cathedraes para quarteis, theatros, ou serrarias de madeira. Está, sim, em precaver por Leis sabias, como sem custo as ha-de fazer o nosso Parlamento agricola, que os Bispos e Parochos sejam sempre o que o seu nome, o seu caracter, a Lei da sua instituição, a utilidade, a necessidade, e a vontade do Povo, e a sua propria consciencia, lhes ordena que sejam.

¿Será isto exequivel? sim, sim; e tanto, e por tão faceis meios, que o que só admira e espanta é não se achar já de muito em execução, em praxe, e em costume.

O primeiro ponto, o primeiro passo, a primeira condição impreterivel para esta reformação tão necessaria e tão urgente, quer a consideremos á luz do Céo, quer á dos interesses temporaes, é a boa escolha dos Bispos.


Foram os Bispos, nos seculos doirados da Egreja, e nas terras onde ella mais floresceu, eleitos, cada um pelo proprio rebanho a que havia de presidir[4]. Nada mais liberal, nada mais natural e justo, nada mais conveniente, que essa usança; nada mais digno de se ressuscitar n’uma edade, que blasona de liberrima e philosophica.

A nomeação dos Prelados pelo Chefe do Estado civil, e só dependente da sancção do Pontifice, sancção em que tantas contemplações, tantos motivos extranhos ao merito real, podem influir, é, mesmo para os entendimentos mais myopes, viciosa, e mais que arriscadissima a desacerto. É esta uma verdade, que (¡ainda mal!) os factos teem repetidamente confirmado.