¿Que dizemos? até para os irracionaes pululam na Europa sociedades protectoras.

¿E a Mulher?! A Mulher, nossa mãe, nossa esposa, nossa filha, nossa irman, a Mulher, nossa ama, nossa educadora, nossa ecónoma, nossa enfermeira, a Mulher que nos civilisa, que nos adoça, nos encaminha, nos aconselha, nos acompanha e consola nos trabalhos, nos realça e requinta as alegrias, a Mulher, que não vive, que não quer, que não pode viver senão para nós, que nos soffre e nos perdoa de continuo, a Mulher que é toda amor, e a mais brilhante revelação do Céo, a Mulher...... é ainda escrava! ¡escrava em plena Europa! ¡em pleno Christianismo! ¡quasi como na Africa e na Asia sob os influxos do Korão! ¡escrava como na India, como na China, como na Tartária, como na Turquia, como na Russia, como entre os selvagens errantes, como entre os Romanos barbaros, escrava, como sempre e em toda a parte!


Já que ellas se não queixam (¡pobres victimas só feitas para soffrer!) ousemos nós defender os seus interesses apesinhados; e não contra os nossos, se não ainda em nosso beneficio.

Parlamento das nossas esperanças, congresso de lavradores, atrevei-vos a uma Lei, que vos doire na Historia, e vos immortalise. Decretae, depois de seis mil annos, a alforria da Mulher.

Não são a milicia, as magistraturas, os governos das provincias, que para ellas vos pedimos; não são as cadeiras de legisladores, nem as do magisterio; n’uma palavra: não são nenhuns dos cargos, que a prepotencia lhes disputaria, e de que a Natureza as tornou isentas (não por fracas, não por inferiores em espirito, mas porque foram fadadas para mães).

Dae-lhes porém o que sem injuria não poderieis recusar-lhes: reconhecei-lhes, como a seus esposos, como a seus paes, como a seus filhos, o direito de suffragio.

De que poderieis vós arrecear-vos franqueando-lhes o caminho á urna? ¿Não teem ellas tanto interesse como nós, em que Leis sabias rejam, e homens sabios administrem? ¿Não zelarão ellas o bem da terra em que vivem seus consortes e a sua prole? ¿Não são ellas dotadas para avaliar os meritos, para estremarem a verdade e a impostura, de uma maravilhosa sagacidade, occulta arma defensiva com que a Natureza as premuniu contra as offensivas do nosso sexo? ¿Não vivem mais longe do tumulto da praça, que a nós outros tanta vez nos desvaira, lançando-nos em turbilhões, já de odios, já de amores insensatos e contradictorios? ¿Não teem innatamente, além do instincto da harmonia, o espirito da justiça? ¿Não foi já por isso, que nas antigas allianças entre Carthaginezes e Gallos se estabeleceu, que, onde de parte a parte recrescessem rasões de queixa, fossem arbitros, por Carthago os seus magistrados, pelas Gallias as suas mulheres?

Mas—vos segredarão alguns com maligno sorriso—¿«conhecem ellas o grande jogo da Politica? ¿fazem ideia do que seja a ordem publica? ¿com quem o aprendeu a sua roca para lh’o ensinar?»

Não, homens honrados, ellas não sabem a Politica; e eis ahi uma das grandes vantagens que nos levam para eleitoras; mas a ordem publica, se a não sabem, adivinhal-a-hão, que para isso, entre seus filhos e domesticos, são rainhas de pequenos reinos. Essa roca, alvo do epigramma ingrato e insolente, é o seu sceptro; e pode ser que acerca da felicidade commum da aldeia, da freguesia, e da provincia, lhes haja ella dito muito mais, nas caladas dos serões de inverno, que á maior parte dos nossos eleitores cortesãos a lampada parisiense entre os baralhos de cartas e os montes de oiro.