Mas concedamos-lhes que nossas esposas, nossas mães, e nossas filhas, nunca jamais até agora pensaram sobre os negocios do Estado, como vos elles dizem. Por isso mesmo, por isso mesmo, lhes deveis restituir mais depressa o seu usurpado e imprescriptivel direito de votação; porque essa indifferença, se n’ellas existe, é mais uma calamidade, pois são as educadoras da geração que nos ha-de succeder.
Concedamos ainda mais: que o precioso affecto da Liberdade é n’ellas quasi nullo. ¿De quem é a culpa? ¡D’ellas!! Não; mas de nós outros, que a poder de escravidão lh’o adormentámos.
Restitui ás Mulheres o seu quinhão legitimo de Liberdade, e vereis como ella se consolida sobre fundamentos de amor mais que duplicados.
¡Que miserrima contradicção é esta: que onde para a herança da Corôa a Lei salica não governa, onde á Mulher se reconhece aptidão para o cargo supremo do Estado, se lh’a denegue para votar como cidadan em mandatarios dos communs interesses!
De uma coisa podeis vós estar certos, Ó Deputados; e é: que as eleições em que ellas entrassem, por menos acertadas que a sua inexperiencia as produzisse, não dariam (porque era impossivel) mais vergonhosos resultados, que todas quantas á sua revelia havemos feito, e que, para vergonha nossa, lá ficam registadas na Historia.
¡Oh! ¡Se o humilde Portugal estava ainda guardado para dar do fundo do seu abysmo tão altas lições, tão esplendidos exemplos á Europa e ao Mundo! ¡Uma Representação nacional genuina e insophismada! ¡um Clero sabio, virtuoso, paternal! ¡a Mulher investida na plenitude dos seus destinos sociaes!....
No dia em que a Patria cingisse por suas mãos tres corôas tão magnificas, morriamos felizes. Teriamos vivido uma eternidade de bemaventurança.
Dezembro de 1848.