Uma folha de papel, que a principio não foi mais que umas hervinhas verdes, depois umas febras seccas e pardas, nos dias da sua maior gloria talvez uma camisa, e a final um trapo despresado e esquecido; uma folha de papel póde ser uma origem de delicias e venturas.
Por meio d’ella, um homem desconhecido, e fechado no seu cantinho, logo que Deus lhe lança na alma um reflexo passageiro da Verdade e do Summo Bem, prende esse raio de luz celeste, liberalisa-o para toda a parte, solidifica-o, bem como de um gaz, que se não vê nem palpa, se faz no fundo das minas um diamante; lança-o assim para o thesoiro commum dos conhecimentos humanos; e, quando ninguem mais lh’o diz, diz-lhe baixinho a sua consciencia:
«¡Oh! ¡Bem hajas, que déste a esmola da alma á alma! ¡Bem hajas, que as horas que podéras gastar no ocio, ou em gosos futeis, em dissipar ou em adquirir haveres, ou em me envenenar a mim, que sou a tua boa consciencia, empregaste-as em proveito dos teus semelhantes! ¡Bem hajas! ¡e bem haverás por certo! Os teus exforços não serão perdidos, nem para o Céo nem para a terra. Lá em cima, o Liberalisador de toda a verdade te coroará; e já, cá no mundo, uma especie de immortalidade e de omnipresença será a tua partilha. Sobreviver-te-has em parte a ti mesmo. O teu nome e os teus pensamentos estarão ao mesmo tempo em muitos logares, graças a esta folha de papel; e os annos, que hão-de destruir o teu corpo, deixarão a tua honrada memoria a crescer para os seculos.»
Mas, se tal é a boa sorte do escritor de veras; se os seus deleites lhe descontam o trabalho e penas que o acompanham; se da sua miseria elle se consola com a lisonjeira certeza de afortunar aos outros; se no silencio do seu albergue desguarnecido ouve já a sua futura fama, e na sua enxerga de palha riem sonhos, que nunca visitaram os colxões de plumas de soberbões inuteis; a mesma folha de papel, que, a baixo de Deus e do estudo, o tornou venturoso, multiplicada pela Imprensa vai fazer por elle muitos outros venturosos.
¡A leitura, meus amigos! ¿Sabeis vós bem o que é a leitura?! É de todas as artes a que menos custa, e a que mais rende.
Ha livros, que, semelhantes a barquinhas milagrosas, incorruptiveis e innaufragaveis, nos levam, pelo Oceano das edades, a descobrir, visitar, e conhecer todo o Mundo que lá vai....
Os povos antigos revivem para nós com todos os seus usos, costumes, trajos, feições, crenças, ideias, vicios, virtudes, interesses, e relações.
A Historia é a mestra da vida, e as suas lições ampliação e complemento ao nosso juizo natural. No que foi, aprendemos o que deve ser. ¡Dizem que mente ás vezes! tambem na seára ha joio, e nem por isso deixais vós de ceifar com alegria. Mas, apesar das suas mentiras, fica ainda sendo a Historia uma das mais verdadeiras coisas do mundo.
Os contemporaneos de cada um dos homens notaveis, heroes ou monstros, dos tempos antigos, talvez os não vissem tão ao natural como nós cá de longe. ¿Porquê? por isso mesmo que eram vivos; cercavam-n-os um estrondo confuso, e vozes contradictorias, que para nós emmudeceram. O amor e o odio, o terror e o enthusiasmo, tingiam nas suas cores os feitos e os ditos: o espectador, muito de perto, e distrahido com os seus proprios negocios, não podia abranger a totalidade de uma scena ás vezes immensa e complicada. Não é nem ao-pé em demasia, nem em demasia longe, que os objectos se julgam com exacção.