Mas não é só a Historia, meus amigos, que nos encanta instruindo-nos. Desde a Mathematica, que péza e mede os astros, até ao officio mais humilde, não ha sciencia, arte, nem mistér, que os livros nos não ensinem divirtindo-nos.
Vós, se lêdes ao serão, cultivais melhor e mais lucrativamente no dia seguinte; sabeis conservar melhor os vossos frutos administrar com mais interesse os vossos haveres. Outro tanto acontece aos vossos visinhos, ferreiro, carpinteiro, surrador, tintureiro, tecelão, etc.
A povoação onde se sabe ler, e se lê, floresce mais, é mais pacifica e morigerada, mais unida e rica, mais poderosa, mais contente, mais amavel, e mais amada.
Porque haveis de saber, meus amigos, que tudo quanto os homens teem descoberto e inventado para augmentar as suas forças, os seus cabedaes, a sua saude, as suas virtudes, as suas relações de amor, e o numero das horas suaves e alegres, tudo, de muitos seculos para cá, se tem ido guardando nos livros. É um patrimonio de sciencia e bondade, que vai sempre a crescer de paes a filhos, onde cada um pode tomar ás mãos cheias o que lhe convém, e para onde a cada um é licito, e até mesmo é dever muito agradavel, levar o pouco ou muito que o seu juizo lhe subministra. É um commercio mutuo de todos os tempos e de todas as almas, do qual ninguem sai lesado, e no qual mesmo dando se recebe.
Quanto a mim, meus bons visinhos, estou muito satisfeito com a minha tarefa litteraria. Outros, mais capazes de vos instruir na Agricultura, teem a bondade de tomar a si esse encargo, para o qual eu mesmo vos confessei já que me não sinto habilitado. Á minha conta está procurar desenfadar-vos algum serão do domingo. ¿Que quereis? quem nasceu para pouco... Um poeta é como um d’estes passarinhos, que Deus creou para recreação do lavrador na força dos seus trabalhos.
Se eu ao menos podesse dizer-vos desde já o em que havemos de entreter-nos.... mas ¡adivinhae-o lá! ¿O passarinho, um minuto antes de abrir o bico, sabe por ventura o que vai gorgear? é a verdura, é a viração, é o sol ou a estrella do momento, que o inspira; a sua hypocrene é muitas vezes a ultima gotta de orvalho, que bebeu no calix de uma flor por onde passou.
Mas, assim como nos cantares do plumoso poeta dos bosques ha sempre o que quer que seja de bom e affectuoso conselho, de revelação do Céo, com o qual elle parece tratar mais de perto do que nós; assim o meu espirito, que mora todo cá dentro no coração, e por elle vale alguma coisa, só praticará comvosco, segundo espero em Deus, em algum dos seus sonhos de felicitação para o genero humano.
Porque haveis de notar, boa gente, que, se o que está feito é muito, muito mais é ainda o que está para fazer. Cada geração adianta um passo; os netos sabem mais que os avós; cada anno floreja ideias, que os seguintes convertem em frutos, e outros, além, amadurecem e colhem. Nos ares andam sempre ideias de todas as edades (sem falar nas que vão cahindo mortas); umas decrépitas; outras recemnascidas, que ainda se não atrevem a voar; outras adultas e robustas; e nenhuma das que se chegam a transformar em obras, deixou de ser na origem muito extranhada, e muito havida por impossivel ou perigosa, e de padecer perseguição da parte de nescios e ruins.