Ora eu, que (Deus louvado) de ruins me não temo, e a escutar nescios me não detenho, parece-me que não poderia, por em quanto, empregar melhor a minha folha de papel, e o vosso serão no casal, do que em vos relatar os meus sonhos ou devaneios solitarios sobre a salvação da Patria pela Agricultura; axioma este já hoje comprehendido por todos os que a Natureza não condemnou a viver e morrer sem comprehenderem nunca nada.

E como é possivel que d’entre vós outros algum, ou muitos, vão um dia deputados áquelle bemdito Parlamento de lavradores, de que eu ha dois mezes vos falava, consentir-me-heis que, ao lume da vossa lareira, exponha aos vossos juizos, naturaes e não pervertidos, mais alguns alvitres para então.

¿Quem nos pode prohibir governarmos o mundo em sêcco o nosso poucochinho? Não só toda a gente o faz, e quasi que se não faz outra coisa, se não que a maior e talvez melhor parte das Leis, primeiro que fosse promulgada por legisladores, tinha sido inventada por homemzinhos obscuros como nós, e d’elles passada á consciencia geral.


Se alguns chamarem politica e ruindade a este uso que nós fizermos do pouco ou muito entendimento, que Deus nos deu para amarmos os nossos semelhantes, não vos haveis de agastar, nem eu tornar-lhes resposta; que, por mais que thesoirem, não nos descozem o saio,—como lá diziam os nossos velhos.

¿Vêdes vós? acostumaram-se áquillo de ver em tudo politica, e de chamarem politica a tudo; e depois, teem um medo, que se finam, até das verdades velhas, ¡quanto mais das novas! Lá se entendem; e assim é bom, para se não irem d’este mundo totalmente desentendidos.

Não, meus amigos, politica, no sentido estreito que elles dão a esta palavra, politica do soalheiro e do mexerico, de acreditar a Pedro e desacreditar a Paulo, de velhacar Leis e receitar venenos, d’essa não fazemos nós, que nos regala andar com o nosso rosto descoberto, e dormir as nossas noites de um somno e com as portas e janellas abertas em não fazendo frio.

Agora: se ás questões de philosophia social, que elles nunca leram, ou, se leram, não entenderam, ou que, se as entenderam, lhes não cahiram a elles em graça; se ao exame dos fundamentos da felicidade publica, sem referencia a tempos nem a pessoas, chamam politica, essa temol-a feito, e (por mais que lhes pése) havemos de fazel-a sempre, que não somos nenhuns Esaús da Liberdade, que vendessemos o nosso morgado, como por si dizia outro poeta chamado Lamartine, respondendo a um satyrico damnado da sua terra.


Mas.... para nos não parecermos com aquelle parvo do conto, que sabeis, que em logar de adiantar caminho, para chegar á feira a horas e negociar, se deteve todo o dia com o carapuço na mão diante de um pilriteiro, pedindo á sombra movediça licença para passar, eis aqui já, meus futuros Legisladores, um objecto, que assás me parece digno da vossa consideração.