Uma d’estas Leis bemditas vos quero eu contar; porque se algum dia (que pode ser) as nossas semeadas Sociedades de Agricultura pegarem, e, por diligencias d’ellas, tal Parlamento chegar a apparecer, lá considerareis, com o vosso vagar, se do sonho se não deveria fazer realidade. O que lhe deu péga foi aquella nossa pratica do serão ultimo, sobre a obrigação que todo o dono de terra tinha de a aproveitar.


Sonhava eu pois, que todos os proprietarios de bens rusticos, a quem não assistia alguma particular rasão muito attendivel para o contrario, eram obrigados a morar nos seus campos alguma parte do anno.....


Reverdecia a primavera, e eil-os lá sahiam das cidades, colmeias grandes, onde, entre muitos zumbidos, se fabricam favos de fel. Até ás barreiras, ainda iam murmurando contra a salutar violencia, que os bania temporariamente.

Logo ali, ao desembocarem das ruas estreitas e sombrias, que nenhuma estação altéra, para a amplidão de campos e horizontes, a serenidade do ceo azul se lhes começa a filtrar dos olhos para a alma. A madre-silva de cima do cômoro lhes dá as suas rescendentes boas-vindas; e para o coração se lhes côa parte da bemaventurança que inspira aos seus filhinhos libertos o aspecto das papoilas côr de fogo, a rir na verdura sem limites; dos rebanhos, que ondeiam branquejando pelas planicies; dos moinhos, que bracejam cantando pelos oiteiros. Tudo para elles é descobrimento e maravilha: os passaros, que altercam graciosos pelos ramos; as aguas, que manam, a debuxar os arvoredos toucados de flores e sol; os cantares dos rusticos no trabalho; a choupaninha pobrissima, mas que tem ainda com que albergar hospedes; as andorinhas, que tambem vieram lá de outras terras pendurar-lhe por cima da janella unica, e ao abrigo do tecto de palha, o berço dos filhos.

Atravez d’estas scenas, tão antigas e sempre novas, tão sem artificio e tão cheias de harmonias, tão casuaes e tão sabiamente variadas e contrapostas, toda aquella opulenta familia cidadan vai já invejando a boa sorte dos filhos das aldeias, para quem só parece existir a Natureza. Ao estrépito da sua carroagem saem ás portas as creanças, cuja nudez mostra carnes dignas do cinzel de um Assis Rodrigues, e que riem sempre, como os Seraphins do retábulo da freguezia; moças esbeltas, a quem o carmim da aurora corou as faces, como pomos, e que em seus trajos de lan resplandecem como dahlias soberbas em vazos pobres; e bons velhos, que entre tres e quatro gerações de descendentes seus ainda os ajudam com o conselho, e o pão que em ocio lhes comem, lh’o pagam com as vivazes historias do passado.

A carroagem passa por entre essa multidão, tão afortunada quanto na terra se pode ser; passa; mas no seu vôo colheu e deixou sorrisos de benevolencia.

Chegada á sua nova residencia a familia cidadan, sente-se mais á larga em quartos pequenos, d’onde se descortinam campos e montes, do que lá nos doirados e espaçosos carceres de seus salões.

Tudo para todos os sentidos lhe é novo: a linguagem chan e respeitosa dos visinhos; as horas e qualidade das refeições; as danças e cantares do serão; o deitar antes que o sete-estrello vá alto; o erguer muito primeiro que o sol, e quando o passarinho vem dizer á vidraça que já é dia; o lavar e almoçar na fonte, por baixo da parreira; o sahir para toda a parte sem a pesada libré das galas; o descobrir em cada passeio um sitio incognito, e menos esperado do que para Colombo o foi o Novo Mundo. Não ha pessoa que os não saude pelos seus nomes, que não procure algum pretexto para lhes falar, que se não julgasse feliz de os poder servir. Os obsequios mais delicados lhes affluem a cada hora ás portas, trazidos por mãos, que só os seus callos accusam de grosseiras. Na cidade os visinhos não se conhecem, ou são inimigos mutuos; os do campo, quaesquer que sejam as differenças de gerarchia e fortuna, são irmãos da mesma tribu.