Á consciencia respondo: que, se eu tivesse de viver duzentos annos mais, ou se d’aqui a duzentos annos houvesse de renascer, de boa-mente reservaria para então o que hoje antecipo.

Os intolerantes, os fanaticos de cada parcialidade politica, terão muito que abocanhar n’este pobre escrito. Pedir-lhes misericordia, ou mesmo justiça, fôra tempo perdido. Dir-lhes-hei só, que não escrevi para elles. Os homens bons e sinceros, que são os que me importam, ainda quando não concordem comigo, louvarão as minhas intenções.

Se, em uma ou outra parte, eu parecer por ventura censor, em demasia acre, de coisas do meu tempo (de pessoas nunca); se d’ahi quizerem inferir mexeriqueiros, que as minhas rasões são proclamações, e os meus entranhados amores de alma, clamores e rebates sediciosos, não lhes hei-de oppôr (o que aliás fôra verdade, e que de si se apresenta), que as revoluções não são os livros quem as faz, mas sim as coisas; as obras, ou a falta de obras, dos poderosos, e não as palavras dos obscuros e inermes; que as paginas só teem força activa, quando os actos que n’ellas se tratam lh’a communicam; e que essa força activa, ainda quando nem uma lettra se escreva, e então muito mais, sempre existe e sempre actua; que, em summa, o attribuirem ao meu livro efficacia para concitar as turbas, é fazerem-me ao mesmo tempo honraria demasiada, e demasiada injuria.

Não amo revoluções, nem as quero, nem creio n’ellas; tenho vivido este ultimo meio seculo, e não ignoro, de todo, o como doidejaram os precedentes; mas, ainda que para ahi me fugisse a vontade (que não foge), faltavam-me a voz e o desembaraço, indispensaveis para o papel, pelo menos extravagante, de tribuno. Se alguma coisa a tal respeito pregoei, mais foi contra as insurreições, que a favor d’ellas; mais foi gritar aos governantes, que se houvessem de collar no officio por boas obras, do que aos governados, que os derribassem; quando não, é consultar o livro a cada passo.

Se descreio em algum, ou alguns, dos presuppostos artigos de fé constitucional, não é culpa minha, nem é culpa; affiro-os pela rasão pura; avalio-os pelos resultados; comparo-os cá dentro, no meu fôro, já com as obras inconsequentes, já com os versateis discursos de muitos dos estadistas, que por elles fazem obra; e digo, com toda a paz da minha philosophia humilissima, que me parece não seria mau pensarmos outra vez um pouco em taes artigos. Toda a discussão dá luz; e toda a luz é creadora. As theses politicas não são porém as minhas; as minhas, o epilogo do meu livro, a isto se reduzem: temos terra, que pode ser mais e melhor cultivada; devemos cultival-a; temos alma, que pode ser mais e melhor allumiada; devemos allumial-a; temos coração, que pode ser mais puro, mais virtuoso, e mais amante, e mais coração; devemos aproveital-o.

A terra nos fará ricos; a instrucção, poderosos; a moralidade, unidos. A riqueza, o poder, a fraternidade, que são a civilisação, felizes.

Quanto á Agricultura, as minhas diligencias não deixaram, talvez, de contribuir o seu poucochinho, segundo alguem crê, para este promettedor tráfego de Sociedades agricolas, que hoje vai no Reino.

Quanto á Instrucção publica primaria, ajudei, e continúo a ajudar, a obra santa, com o que pude e posso; do que, dou por prova o odio e perseguições, com que os obscurantes me teem honrado.

Quanto á moralidade e fraternidade, esses bens, d’aquelles dois bens se hão-de filiar; mas ha-de ser tarde. Só quando deixarmos de ser politicos, principiaremos a ser bons.

Do livro, como producto litterario, não ha por que falemos; foi escrito de carreira, sem traça prévia, nem plano ordenado. Nem digo bem «escrito»; foi conversado, como quer que as ideias vieram vindo.