Refundira-o eu, se houvesse tempo, ou valesse a pena; decotaria redundancias: aproximaria pontos homogéneos, que vão separados; reduziria as doutrinas a um systema, e concatenação severa de raciocinios. Nada d’isso farei. Apraz-me conservar-lhe o seu caracter fortuito e desambicioso; só assim, é que me posso n’elle reconhecer.

É uma conversação, com todos os seus altibaixos, com todas as suas duvidas e incertezas, com todas as suas quebras e digressões, com todo o desalinho de homem sincero, que antes quer ser amado, e merecel-o, do que citado e admirado, inda que o podesse.

Páro já, porque estender mais as advertencias sobre coisa tão pequena, já passaria de ociosidade.

I
Excellencias da vida rustica

SUMMARIO

Os campos são mais nobres que as cidades.—O trato rural produz tudo.—A Agricultura, com os seus dois filhos, Industria e Commercio, é a expressão maxima da Munificencia Divina, e o mais claro argumento da sociabilidade do homem.—As cidades são centros para a circulação da moeda.—Só um povo agricola é deveras rico.—As honras dadas á Agricultura assentam em principios muito reaes.—A Biblia, e Homero.—Os Romanos da Republica.—O que eram as mulheres n’esse tempo.—A gratidão divinisou entre as gentes primitivas os inventores industriaes e ruraes. Refutação de um dito de Santo Agostinho.—Origem das mythologias campestres.—Os deuses rusticos eram uma decomposição da Providencia. O Christianismo destruiu aquellas risonhas crenças. O campo tomou outra especie de interesse.—Klopstock e Gessner.—As sciencias naturaes vieram substituir com vantagem a perdida idealidade dos campos.—Esboço da grandeza e poder d’estas sciencias.—Confirmar o lavrador na religiosidade hereditaria.—Excitar os ricos e poderosos, para que amem o campo e seus cultores.—Elogio moral e politico do viver campestre.

A arte variadissima de obrigar a terra a produzir tudo, não é uma arte rude, pois todas as sciencias a cortejam, e a servem; não obscura, pois é a mais antiga e universal; não vil nem desprezivel, pois só depende de Deus, em quanto os homens todos dependem d’ella.

As cidades, que affectam desprezar os campos, d’elles nasceram; por elles vivem e medram, que só lá teem as suas raizes. Transformam-se ellas, envelhecem, amesquinham-se, doidejam, morrem, e esquecem; em quanto elles, os campos, permanecem, riem, amam, dão, e promettem de continuo; coexistiram desde o principio, coexistirão até ao fim, com a raça humana.

A charrua e o enxadão topam em toda a parte com as ruinas de templos e palacios. Essas maravilhas ephémeras da Arte pompearam um momento sobre o solo desvestido, e logo a Natureza as afogou; as recobriu outra vez com o seu sólo, com a sua vegetação, com os seus frutos, com as suas fragrancias, com a sua paz, com as suas harmonias, primitivas e ineffaveis.

¿Ouvis nas cidades grandes aquelle sussurro profundo de mil vozes, como bramir de Oceano? É o estrépito da industria, o tráfego do commercio, a ebriedade das mezas, o vozear dos espectaculos.