Dizia-vos eu, meus camponezes, que todos os poetas de veras eram vossos amigos; não ha nada mais certo.

A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas delicias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sabia, muito altiva muito malédica, muito contradictoria; ora devota, ora impia, ora frivola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhe desluziram da lembrança.

Em nenhuma parte a ouvirieis cantar combates, viagens, descobrimentos, artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para alem-mundo, que lhe não fugisse um olhar de saudade para o seu paraiso de flores.

A edade de oiro, que é a sua scisma contínua, posta umas vezes no passado, outras no futuro, a edade de oiro (que Deus sabe se é tão fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu titulo), ¿que era ella se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?

Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e outros mananciaes de Poesia, não teem pagina, que nos não espelhe uns reflexos das bemaventuranças patriarchal e heroica, que são tambem Arcadia, com leves modificações.

Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, ¿que é o que mais nos encanta? Não são por certo as descripções dos seus usos exclusivos, ainda que para ahi se attrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques allusivos ao viver rural, porque emfim, ahi é que é o ponto de contacto de todas as edades, e de todas as civilisações. O campo é que é o centro de unidade da especie humana.


Se tivessemos vagar, muito nos haviamos de entreter relendo em commum, aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras mui diversas, e paizes mui remotos, por onde acabarieis de conhecer quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fôra leitura para cem annos bem aproveitados.

Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale centos.

Nasceu este na Italia, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove seculos, e quando o latim era ainda lingua viva e bizarra. Chamava-se Publio Ovidio Nasão, e era cavalleiro, ou fidalgo d’aquellas eras. Vivia na Côrte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido no paço dos Imperadores.