Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por signal que offereci a traducção a um muito particular amigo d’elle, meu, e vosso, que é o Secretario da nossa Sociedade de Agricultura.

Ha nos Fastos muitas e mui bellas provas do que eu ha pouco vos dizia: do amor que o bom do Ovidio tinha á vida campestre.

Amostrar-vos-hei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mez de Janeiro.

Canta assim:

FESTA DAS SEMENTEIRAS

Nos Annaes, onde as festas veem marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assiduo,
e entendendo-me o empenho,—«Em balde as buscas—rindo
a Musa me diz;—«¿festas mudaveis
das fixas no registro achar querias?
Teem marcada estação, e o dia incerto;
celebram-se no praso em que estão prenhes
de sementes os chãos. Gosae do ocio
á farta manjadoira, ó bois coroados;
lá virá logo a activa Primavera,
á cerviz repoisada impondo jugo,
co’a renascente lida afadigar-vos.
No abrigo do casal durma por ora
a cançada charrua; a terra fria
não deseja, não soffre, o ser rasgada.»
Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dae folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a annual fogaça.
Tellus e Céres, madres das seáras
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já coa’s entranhas da suina fêmea.
D’entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Céres nol-o produz; mantem-n-o a Terra.
Ó consocias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dae aos colonos,
em premio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.
Dae augmento continuo aos germes tenros,
e que a neve á nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpae-nos o ceo com ventos brandos;
mal que enterrada fôr, mandae-lhe as chuvas;
e, pois são gloria vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo d’essas veigas,
rumorejam fartura, ¡eia, salvae-as
do avido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas poupae-o; usura grande
havereis d’elle, se aguardais a aceifa.
Livre de tôrpe alforra a messe vingue,
e côr de alma saude o Céu lhe influa;
que nem definhe pallida, nem perca
por excesso de viço e nimia pompa.
Joio, á vista nocivo, os chãos não brotem,
nem tôrpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.
Lavradores, por vós taes são meus rogos.
Co’os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.
Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu bellicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corsel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ensinho em elmos.
¡Graças, deusas, a vós, a vós, ó Cesares!
o Genio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro acceite o jugo; o solo, os germes;
Céres, filha da paz, co’a paz triumphe.


Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mez de Fevereiro, em honra do deus Término, ou Têrmo.

Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que extremava os predios. Com rasão lhe davam aquelle culto; nada mais respeitavel, que a propriedade; nada mais judicioso, que santifical-a.

FESTA DO DEUS TÉRMINO