Segundo elles, quando escrevem e imprimem, ambos somos miguelistas; segundo elles, quando falam, ambos somos republicanos, communistas, sansimonistas, fourieristas, e não sei que mais. Segundo elles, por fora, ambos somos flagellos da Cólera Divina. ¿E porquê? porque, lá por dentro, bem sabem elles tão bem como nós mesmos, tão bem como toda a Ilha de S. Miguel, que, se temos ambição, é só de contribuirmos cada um com todos os seus meios, e com os que o outro lhe possa proporcionar, para a maior felicidade moral e physica do maior numero; para a educação e instrucção do Povo; para a prosperidade e esplendor da terra; para o restabelecimento da harmonia entre os visinhos, e entre os mais apartados dominios do mesmo Reino.
Os actos magnificos da sua, apenas encetada, carreira publica, o jornal verdadeiramente cartista de S. Miguel, A Verdade, os tem enthesoirado; o jornal mesmo da opposição n’aquella ilha os tem recebido com louvor; o Povo, com agradecimento; o Throno, com satisfação. Quanto a mim, homem obscuro, e quasi sem forças proprias além da boa-vontade, relevar-se-me-ha que n’um jornal, destinado a viver como livro, lance como um protesto contra calumniadores, a menção do pouco bem que desejei, e talvez consegui, fazer em terra portugueza. Não é por vangloria que me faço Homero da minha Iliada; é porque o curar do bom-nome é um dever religioso; e apresentar estimulos para que outros façam mais e melhor, um dever social; e o deixar exemplos de Patriotismo a filhos, um dever natural, o mais suave e o mais santo de todos os deveres.
Entre as lastimas, que em S. Miguel fui descobrir (bem contra o que de tal Ilha me haviam pintado), as que mais me doeram foram: a grande mingua de instrucção para o Povo, aliás aptissimo para toda a especie de boa doutrina; a carencia de estimulos, que de alguma sorte neutralisassem a perguiça natural; e a pouquissima, e quasi nenhuma, convivencia dos moradores.
A todos estes males me pareceu que poderia acudir uma Sociedade, se jámais se chegasse a organisar, que sinceramente posesse peito a crear escolas com bons methodos; a accender emulações entre artistas e artifices; e a pôr no possivel contacto as differentes classes.
Uma Sociedade de Agricultura, que já ali existia, prestantissima para o seu grande fim, era comtudo extranha a todos estes, que a mim se me representavam como de primeira necessidade e urgencia. Coadjuvando pois os empenhos d’essa Sociedade exemplar, como redactor que tive a honra de ser, do seu periodico, e com algumas propostas, que ella se dignou de me acolher benevola[8], comecei a tratar, ao mesmo tempo, com alguns poucos amigos, de instituir outra, e mais ampla, Sociedade de Lettras e Artes.
Nunca jamais a fortuna sorrira tão benigna a projectos meus. Crescemos de semana para semana, até ao ponto de em minha casa não cabermos, ser-nos forçoso irmos celebrar no theatro as nossas sessões, e passarmos hoje de quatro centos, incluindo-se n’esta conta o Prelado, o Vigario geral, o Governador Civil, o Militar, o commandante da força armada, o Administrador do Concelho, o Presidente da Camara Municipal, o Presidente e outros Juizes da Relação, o Juiz de Direito, o Delegado do Procurador Regio, em summa, tudo que a cidade de Ponta-Delgada possue de mais alto, de mais illustre, de mais instruido, e de mais patriotico, sem falar em muitas senhoras respeitabilissimas, que promptamente se fizeram inscrever para esta cruzada de civilisação.
A Sociedade acha-se pois por sua parte constituida, e os seus estatutos já subiram á Real Presença para obterem approvação. Os beneficios que ella tem produzido, sendo apenas recem-nascida, se não egualam, nem ás publicas necessidades, nem aos nossos desejos, são já todavia attendiveis, e promettedores de muito maiores.
A Exposição da Industria Michaelense, desde o dia de Natal do anno proximo passado até muito depois dos Reis, foi mais que um espectaculo imprevisto e maravilhoso: foi um fomento efficacissimo ao trabalho e natural habilidade dos habitantes. Quatro grandes salas continham apenas os productos, que ahi se apinharam, offerecidos á admiração de cerca de vinte mil visitadores, incluindo n’esse numero os repetentes. Em todos os generos appareceram primores, e muitos em desenho e pintura, em gravura, em escultura, em flores artificiaes, de seda, de lan, de cabello, de pennas, de cera, de conchas; bordados, obras de ourives, de galvanisador, de doirador, de ferreiro, de serralheiro, de cuteleiro, de carpinteiro, de marceneiro, entalhador e torneiro, de machinismo, de tecelagem, de fiação de linho, de algodão, e de seda; de encadernação, etc., etc., etc.
A Ilha mesma ficou admirada das riquezas industriaes, que possuia sem o saber. Accenderam-se-lhe novos brios com este documento irrefragavel de suas forças; e tudo nos faz esperar, que a seguinte exposição não cederá a esta em esplendor. O que n’este momento as Ilhas Canarias estão forcejando por conseguir, já existe pois nas dos Açores, graças ao poder da associação.
As escolas são outro bem, menos brilhante sim, porém ainda mais sólido que o precedente.