Resta o desamparo da pobre enjeitada e desterrada no meio do Oceano. A esse respeito ha certamente muito e muitissimo, que se pode, e que por mil rasões se deve, fazer.

Quando bem se adverte em que a Ilha de S. Miguel se alistou na vanguarda do Exercito libertador, que generosa offereceu haveres e sangue pelo Codigo e pela Filha de Dom Pedro, e se vê ao presente quasi toda (ou toda) opposição, é impossivel desconhecer uma força-maior, que operou tal metamorphose; porque estes Insulanos nem são maus, como alguns os pintam, nem turbulentos, nem loucos; mas teem, como todos, o instincto da vida, e o da justiça.

Defenda-me Deus de fazer ao Throno a injuria de suppôr, quanto mais de acreditar, como alguns por lá dizem no accesso da sua melancolia, que, de proposito e a acinte, o Governo os tem querido conservar sempre na ignorancia e abjecção, pondo-lhes de industria magistrados maléficos ou nullos, difficultando-lhes a instrucção, expremendo-os, torcendo-os, exhaurindo-os do seu oiro, e não lhes deixando d’elle com que fazerem nenhuma das faceis obras publicas de que mais carecem.

A verdade é, todavia, que, por mal informado sobre as necessidades d’aquella Provincia longinqua, e por lhe não chegarem cá os seus clamores, o Governo (posto que sem imputação) tem commettido, deixado subsistir e crescer, o mal, até o ponto de não faltar por lá, mesmo no Povo infimo e rudissimo, mesmo na classe mais alta, e nos mais distinctos entendimentos, quem sonhe com as perigosas utopias de uma independencia.

Não digo bem; houve essas utopias; hoje um Governador Civil ás direitas, como sempre lá e por toda a parte os devêra ter havido, fez ver áquelle bom Povo que a Soberana, por quem se votou, não é ingrata; elle lhe promove, até onde pode, as commodidades; lança-lhes balsamo nas feridas, que flagellos continuos lhes abriram; administra justiça prompta e inteira; concilia os despeitados; acompanha-os e precede-os pelo caminho franco do progresso illustrado; é o medico de todas as dôres, o procurador de todas as minguas para que não basta a sua autoridade. Graças aos seus exforços, todas as parcialidades vão a convergir para o grande centro; todas as forças conspiram já para a luz, para o trabalho, e para a civilisação.

A Revista é extranha á Politica; tambem eu o sou; mas isto não é Politica; pelo menos não o é do genero, especie, e variedade, d’aquellas com que nada queremos; é um paragrapho singelo de Historia, util por mais de uma via, e que em resultados praticos pode ser fecundo. Julguei dever aproveitar-me da occasião de confial-o a um papel sincero e acreditado, não só para exemplo e incentivo, mas tambem para galardão e desafronta, pois me consta que já linguas mexeriqueiras andam por ahi no seu costumado officio de desacreditar e empecer ao que não podem imitar.

O que nenhuma voz se atreveria a proferir hoje em S. Miguel contra o chefe administrativo, pois em logar de eccos só provocaria indignação ou risadas, vem, cobarde e maldosamente, espalhal o aqui, por saberem que entre as suas calumnias e a verdade está um fosso de 212 leguas de Oceano. Ora, como os córos de milhares de bençãos, de tão longe, devem aqui soar menos que as invejinhas presentes, que por todas as abertas se insinuam, e quanto mais despreziveis mais vão zumbindo, julguei dever de consciencia levantar por cima d’esse sussurro, pequeno, anonymo, e ingratissimo, um brado forte e independente. Quem affirma e sustentará que San Miguel não teve ainda cabeça administrativa mais zelosa, mais energica, mais intelligente, nem mais bemquista, nem mais promettedora em tudo e por tudo de uma era nova, que o sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, quem o affirma e sustentará, é quem assigna, com todas as lettras de seu proprio nome, esta carta.

Qualquer dos invejosos ou inimigos d’aquella Ilha, que houver dito o contrario, que levante a luva e descubra o rosto. Com esta condição, achar-me-ha na estacada prompto a dar-lhe razão do dito.

Nem um, meu Amigo, nem um ha-de apparecer; afianço-lh’o eu; e se apparecer, tanto melhor; justiça e verdade não se acrisolam senão ao fogo[7].

A alguem parecerá que, para ser em materia incontroversa, e alheia, já tenho deixado correr o preambulo por fóra das medidas; mas não é assim, pois, por uma parte, a zizania que ás mãos cheias se espalha, e se rega convenientemente, ainda que de certo não será com chuvas de Danae, sempre a final damna o bom grão; e quanto a serem-me extranhos estes interesses, tambem o não são, porque defendendo o sr. Sousa de Macedo, não advogo simplesmente o interesse publico, não me limito em servir ao amigo como amigo, e, como escriptor, a um excellente engenho portuguez, se não que arrazôo pelo meu proprio credito. Sim, os nossos inimigos são communs; communs as accusações que nos fazem.