Se d’estes phanlasterios se pode alguem queixar, não serão senão os apologistas da taberna, e certas outras casas não menos moraes e honestas.

O amor do trabalho tem recebido notavel impulso do complexo de tudo isto, e de outra causa ainda, que fará rir os nescios, mas que nenhum espirito dotado de philosophia deixará de entender: falo do Hymno do trabalho[11], brilhante composição musica de um dos Socios, o snr. Moraes Pereira.

Este Hymno tornou se de repente o mais popular dos cantos em toda a superficie da Ilha; as vozes, os instrumentos, o assobio, o repetem de continuo pelas ruas, pelas salas, pelas officinas, na lavoira, no theatro, nas escolas, em toda a parte. Áquella constante exhortação

Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho
brotam vida, cidades, amor.

tem-se visto muito braço, que desfallecia com a perguiça, reforçar-se para a tarefa. O malho e a serra mesmos, como que se magnetisam. Se eu tivesse uma officina de qualquer industria, quereria que os meus obreiros cantassem, em côro e a miudo, aquelle Hymno. Se a grave Allemanha me ouvisse isto, não me negaria a rasão.

Aqui tem, meu bom Amigo, o que é já hoje a incalumniavel Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel. ¿Os seus destinos ulteriores, quem os calculará? Avivente-a Deus, que teem de ser immensos; ¡tantos, tamanhos, e tão esperançosos são os bons engenhos, habilidades, e desejos d’aquelles nossos optimos irmãos insulanos!

Para assegurar, do possivel modo, força e estabilidade a tal instituto, em terra tão necessitada, e tão propria d’elle, pareceu-me que devia a Sociedade radicar-se, e tornar-se independente de inconstancias e entibiamentos de vontades. Para isto, duas coisas eram, a meu ver, necessarias: grangear-lhe casa, e dote.

De um e outro alvitre me riram a principio, como de utopia rematada. Nem por isso descoroçoei. Puz-me á capa aguardando monção, e não tardou.

Hoje, nem na Sociedade nem fóra d’ella ha já quem não acredite firmemente em que de donativos e esmolas, esmolas em dinheiro, em generos, e em trabalho, havemos de levantar um dote e uma casa á Sociedade, assim como os Frades erigiram conventos, e para os conventos grangearam rendas. Os Frades pediam em nome do Ceo, eram acreditados, obtinham; nós havemos de pedir em nome da humanidade, e do Ceo tambem, e havemos de obter egualmente, porque o nosso pequeno passado é já, aos olhos de toda a gente, o fiador do nosso prestimo.

A casa que meditamos, e que eu já d’aqui antevejo feita em menos de um anno, é para as nossas escolas, para o nosso theatro de declamação, para as nossas sessões, para a nossa bibliotheca, para o nosso museu, para as nossas exposições, para os nossos concertos musicos, para o nosso basar de productos industriaes, em summa: para toda a especie de bons serviços publicos. ¿Como poderia o Publico deixar de nos favorecer na edificação, até lhe pôrmos a ultima telha, o ultimo prego, e o ultimo vidro? Elle e nós havemos de acarretar, todos, pessoalmente, a pedra a areia se fôr preciso. Nós por entre elle havemos de ir de povoação em povoação, de casal em casal, sem vergonha e com alegria, a pé e de sacco ás costas, mendigando para a obra santa.