Castilho.
VI
Requerimento á Camara dos Senhores Deputados
Senhores:
Existe hoje nos confins dos estados Portuguezes uma Sociedade, talvez sem exemplo, que nasceu grande, possante, auspiciosa, e, em poucos mezes de existencia, apresenta já momentosos, copiosissimos, e incontestaveis resultados para a illustração e ventura do Publico. Esta Sociedade é a dos Amigos das lettras e artes em S. Miguel, cujos Estatutos já em 3 do corrente Abril foram confirmados por S. M. F.
Quando se vê, Senhores, o que uma tal organisação germinalmente contém de sciencia de moralidade, de prosperos fados para as gerações que teem de vir, e já mesmo para esta, é impossivel não a abençoar, desejando-lhe vida sem limite. Para o fim de a conseguir, ella pôz no remate dos seus Estatutos, como chave de abóbada, a declaração de que era immortal, como o sentimento de beneficencia que a produzira; e, para realisar esse nobre sonho de ambição humanitaria, determinou fundar para si, isto é: para suas escolas, bibliotheca, museu, representações scenicas, exposições, etc., uma formosa casa, e uma dotação sufficiente; com a expressa condição de que, se por algum imprevisto concurso de circumstancias, a sua benefica existencia cessasse de se manifestar, dotação e casa passariam ipso facto para o usufructo do Hospital de Ponta-Delgada, o qual, a todo o tempo que a mesma Sociedade recomeçasse os seus trabalhos, ficaria obrigado a fazer-lhe de tudo fiel e promptissima restituição; providencia esta, que mereceu a approvação de S. M. F., como sem duvida obterá tambem a vossa.
A Sociedade não se dissimula, Senhores, que uma casa e uma dotação assim, tanto não são empreza facil, que á primeira vista devem parecer um puro sonho de devaneadores philanthropicos. Entretanto não ha já hoje n’aquella Cidade e Ilha, quem não esteja convencido da mais que probabilidade da realisação certa de tal desiderandum, só pelo meio dos donativos, esmolas, e serviços gratuitos, tanto dos Socios, como de extranhos á Sociedade; ¡graças aos milagrosos frutos, que todos teem visto brotar da nossa Exposição da Industria michaelense, e das nossas incançaveis Escolas, de ler, de arithmetica e geometria applicada ás Artes, de Doutrina christan, de desenho de figura e paizagem, de francez, de inglez, de poetica e declamação, de musica, de hygiene, etc..
A perguiça, doença esporádica em toda a parte, mas ali peste geral e antiquissima, tem já singularmente diminuido com esta maravilhosa excitação dada a todas as coisas uteis pela Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes; o Hymno do trabalho canta-se já em toda a superficie da Ilha, e o seu amor vai-se filtrando do canto para as obras.
¿Como poderia pois a população deixar de contribuir gostosa com esmolas, que a final não são dadas senão a ella mesma e a seus filhos? Com esmolas de cobre se fundaram e dotaram conventos, como palacios de Monarchas, nos seculos de Fé. ¿N’esta edade de interesses materiaes, e de illustração, poderia o bom senso fazer menos em favor do nosso Instituto?
A Sociedade vem pois, Senhores, á vossa respeitavel presença supplicar lhe coadjuveis a projectada edificação do seu Solar de Lettras e Artes, cedendo á mesma Sociedade a pequena cêrca do extincto convento da Conceição d’aquella Cidade, hoje palacio do Governo Civil, com a adjacente área e ruinas da egreja de S. José.
A planta, que, junto com este requerimento se offerece á vossa consideração, bem claramente mostra não haver excesso no pedido, pois n’aquelle pouco terreno se teem de erigir salas, escolas, basar, officinas, e theatro, de que não ha um unico publico, n’uma Cidade de tanta importancia; devendo ficar ainda sufficiente espaço descoberto para exercicios gymnasticos, tão conducentes para a boa creação physica.