Ao regressar, os dias me pareciam não acabar nunca, e os sonhos das noites me vinham todos povoados de imnumeraveis e cordeaes abraços, de emboras, perguntas e respostas de bons amigos, de caricias domesticas, de escolas vicejantes, de salas de industria, da musica do trabalho, de toda a poesia das esperanças.
Se metade d’isso, que eu vim gosando embalado pelas ondas, por baixo da immensidade do Ceo, e não me afastando de uma Patria, senão para me aproximar a outra, se a metade d’esses sonhos se realisar, S. Miguel dentro em poucos annos será visitada de toda a parte com admiração e encantamento, que para tudo, mesmo para a realisação das mais altas utopias do bem, são a sua terra, os seus haveres, e as almas dos seus moradores.
Nem lisonjeio, snr. Redactor, nem cuido que o bem-querer me desvaire. As provas do futuro que antevejo, já todos as palpâmos no passado, e sobretudo no presente.
Apoz dez dias levados no ocio, a sós com a minha alma, n’estas suaves cogitações, imaginae, snr. Redactor, qual não seria o meu enlevo, quando, ao aportarmos aqui, pelo sol de uma formosa tarde, que é tambem esperança, me vi de repente cercado de saudações e festejos, entre os braços de tudo que mais amo, recebido em verdadeira ovação de amisade, conduzido pelo braço de minha esposa, entre os meus filhos e os meus consocios, ao som do Hymno da Industria, ao estrépito de foguetes, por baixo de flores, e atravez do nosso bom Povo apinhado pelas ruas, até dentro de minha casa!
Eis aqui, snr. Redactor, o que eu para desafogo de tantos affectos accumulados no peito, carecia de escrever.
¡Agradecer!?....¿Como hei-de eu agradecer o que apenas cabe em expressão?
A benevolencia de uma grande cidade, ¿como pode retribuil-a quem, por uma parte, só possue os bons desejos, e por outra, se sente confundido e aniquilado com a grandeza mesma do obsequio?
Sr. Redactor, se eu não tivesse já antes consagrado a esta generosa terra tudo quanto em mim ha de amor e querer, agora lh’o consagrára para todo sempre, e ficaria ainda empenhado.
Snr. Redactor, o dia 25 de Maio de 1849 foi o mais bello dos meus quarenta e nove annos. Egual ou superior a este, só poderá alvorecer para mim, quando eu a vir tão prospera quanto ella o merece, e o pode ser.
Vosso, etc.
Antonio Feliciano de Castilho
Ponta Delgada 25 de Maio
á meia noite.